teste

terça-feira, 20 de março de 2018

Com o pé esquerdo


Obviamente não esperava que nada de bom pudesse vir da campanha de Ciro Gomes, velho conhecido de carnavais d’outrora. Ainda assim, devo confessar que me surpreendi com a entrevista do coordenador de seu programa econômico, Nelson Marconi, que conseguiu ser ainda mais desataviada do que imaginava possível, revelando que os “novo-neo-proto-paleo desenvolvimentistas (NNPPD)” compartilham da mesma aversão ao aprendizado que os responsáveis pela maior crise dos últimos trinta e tantos anos.

Deixando de lado, por falta de espaço, as propostas de política industrial e uso do BNDES (de novo!), começamos com a velha insistência nos poderes mágico-mediúnicos da taxa de câmbio, que, se “colocada” no ponto certo (entre R$ 3,80 e R$4,00/dólar, mas, caso o dólar suba para, digamos, R$ 3,50, passará para R$ 4,20, ou algo parecido), resolveria todos nossos problemas.

À parte o misterioso processo pelo qual se chega a número tão preciso, jamais compartilhado com quem é inteligente o suficiente para não fazer parte da seita, menciona-se casualmente que uma vez que o câmbio “chegue a essa faixa, é preciso mantê-lo lá”, ou seja, voltaríamos para o regime de taxas administradas de câmbio.

Não bastasse a triste experiência nacional com este regime no que diz respeito à saúde do balanço de pagamentos, é sabido que, sob ele, à política monetária cabe a manutenção da paridade, enquanto o fardo de controlar a inflação é transferido à política fiscal.

Mesmo se deixarmos de lado que, em caso de turbulência externa, as consequências sobre as taxas de juros podem ser precisamente as opostas às defendidas pelo pessoal NNPPD, esta proposta exige um ajuste fiscal muito mais duro do que o implicado pelo teto de gastos, que, se mantido, eliminaria o déficit primário em horizonte de 3 a 5 anos.

Os planos para o ajuste fiscal, contudo, são nebulosos, para dizer o mínimo. A ideia é passar um “pente fino” nas despesas, metáfora que – além de me ofender pessoalmente – repete os mesmos equívocos publicados por Marconi em artigo cometido na Folha em agosto de 2015.

Não me entendam mal: bem sei que há muita ineficiência e desperdício no setor público brasileiro, que devem mesmo ser corrigidos; mas sei também que nenhum economista adulto pode acreditar que eliminá-los chegaria perto do nível de ajuste hoje necessário.

Basta lembrar que em 2017 o governo federal gastou R$ 1,3 trilhão, quase 20% do PIB, dos quais a previdência (inclusive funcionários inativos e pensionistas) representou 11% do PIB, ou seja, 55% do total. Contar feijões enquanto se ignora a reforma previdenciária não chega sequer a ser um exercício em futilidade: é apenas um disparate.

A este respeito o máximo que Marconi propõe é um regime de capitalização, outra ideia que nenhum economista com mais de 18 anos tem o direito de aceitar, pois implicaria um custo de transição proibitivo. Abrir mão da receita previdenciária hoje resultaria num buraco adicional de R$ 375 bilhões/ano (5,7% do PIB) nas contas públicas. Haja feijão para contar...

O que se depreende, ao final da entrevista, é a crença que a Nova Matriz não falhou; só faltou aplicar seus princípios com mais afinco...

Como diziam de mim nos tempos em que jogava bola, ainda bem que estes a natureza marca.




(Publicado 14/Mar/2018)

Reações:

21 comentários:

Essa equipe do Ciro são aqueles economistas nível "indice big mac"
e raciossimios rasos do tipo deste. Se acham genios, tem solução pra tudo, o problema é sempre a realidade que não obedece aos precípios superiores dessas mentalidades iluminadas.

Hoje Delfim parou de escrever no Valor. Torcemos para que não venha coisa pior.

O que você não sabe, meu caro, e esqueça assim que, aqui, ficar sabendo, é que, dias desses, olhando minha bola de cristal, vi cara do dito-cujo brilhando lá dentro com a faixa presidencial. A bola implodiu na hora, mas levei um susto daqueles...

Tomara realmente que a "natureza marque" esse tipo de idiota. Como bem disse o Samuel Pessôa na entrevista ao Estadão, "nesses lugares (na França, nos Estados Unidos, no Chile) acontece alguma coisa que essas pessoas nunca viram o ministro da Fazenda, nunca viram o secretário do Tesouro Nacional ou o presidente da República […]." Mas, no Brasil, não tivemos essa sorte.

Primeiramente, ocorre que, na verdade, se trata de uma faixa entre 3,80 e 4,00 reais o dólar, ele não chegou a nenhum "número tão preciso" como vc diz, ele mesmo determinou uma faixa.

Além disso, o problema de BP com o câmbio controlado, por vc citado, ocorre quando há uma pressão pela desvalorização cambial que o bacen tenta segurar. Como foi a lambança feita por Gustavia franco e sua trupe em 1999. O caso em questão parece diferente, o bacen é que faria a pressão pela desvalorização cambial.

E de onde vem o número mágico de 4% para a inflação tupiniquim definida pelo Atual diretoria?

pior...?!?!
Pior tipo ser escolhido novo ministro???
Oremos!

Alex,

Pq nenhum presidente do Bacen tem coragem de diminuir o grau da concentração bancária no mercado brasileiro?

"E de onde vem o número mágico de 4% para a inflação tupiniquim definida pelo Atual diretoria?"

1. Não é definido pela diretoria do BC, mas pelo CMN. A meta de inflação não é mágica: é uma decisão política;

2. Já meta para a taxa de câmbio é mágica. Se não sabe porque, estude e volte a perguntar

"Primeiramente, ocorre que, na verdade, se trata de uma faixa entre 3,80 e 4,00 reais o dólar, ele não chegou a nenhum "número tão preciso" como vc diz, ele mesmo determinou uma faixa."

É... Uma faixa de 5% de variação... Ô, sua besta, você ainda não entendeu que a "faixa" é só uma tentativa desajeitada de dar a entender que o número foi estimado com base em alguma coisa e não como um baita chute (o que, de fato, é!)

Faixa de c... é r...

Ahahahaahahahahahahahahhaahhahah

Boa Alex

O assessor de Ciro é Marcos Lisboa

Olá Alex!
O que o senhor acha do Felipe Salto, que escreveu o artigo de 2015 com o N. Marconi?
Fiquei sabendo que ele é/foi assistente do Serra

Abraços!

Alex,

Nelson Marconi,Bresser Pereira, Márcio Holland, Barbosa, etc...
O que aconteceu com a economia da fgv-sp?

Mais importante de que a reforma previdenciária é um aumento na pena de corrupção, para no mínimo 20 anos de reclusão e com aplicação da própria; mais importante do que a dita, a reforma tributária, que deve diminuir sobre produtos e serviços e compensar isto sobre a renda; mais importante do que aquela, a reforma política que assegure que partidos sejam políticos e não verdadeiras organizações criminosas.
Equilibrar o orçamento (receita / despesa) é a principal meta dos que desejam desequilibrá-lo em emendas, obras e esquemas de corrupção.
Deixa assim, orçamento 'apertadim': nos espoliarão menos.

Alex, independencia significa ausencia de dependencia. Nessa caso, o BC nao depende de ninguem pra porra nenhuma certo? Ele
Escolhe suas metas e como alcanca-las!

Um BC autonomo é aquele que depende da meta dada pela sociedade, mas que tem carta branca pra alcancar esse objetivo. Certo?

A FGV do Rio é liberal a de SPaulo não .Porque?

O senhor que advoga contra o aumento do funcionalismo publico viu a declaração de Sergio Moro:Os juizes estao sem reajuste de salario ,e precisam ganhar mais.Enfim que é contra o aumento do funcionalismo publico, esta contra a lava jato,o combate a corrupção.

"O senhor que advoga contra o aumento do funcionalismo publico viu a declaração de Sergio Moro:Os juizes estao sem reajuste de salario ,e precisam ganhar mais.Enfim que é contra o aumento do funcionalismo publico, esta contra a lava jato,o combate a corrupção."

Ponhamos da seguinte forma: apenas o auxílio-moradia supera a renda mensal de 90% da população brasileira - e não custa lembrar que o IR não incide sobre o benefício. Já os salários dos juízes, mesmo sem reajuste e penduricalhos, colocam-nos facilmente dentro do 1% mais rico. Não me parece que o funcionalismo em geral e juízes em particular estejam tão desalentados quanto dizem.

Por fim, deixo claro que apoio a Lava Jato; mas juízes não precisam de mais do que já têm.

Certa vez um articulista cogitou que Ciro Gomes não age como fala, citando exemplos de seu repertório profissional. Difícil para o público em geral, que desconhece as questões internas dos governos, saber compreender quais seriam estes outros carnavais e outras histórias e bastidores e qual, em relação aos demais presidenciáveis, a problemática na escolha deste candidato.
O fato de o Ceará estar, ao menos em aparência, organizado em suas finanças e tal estado dispor de índices de educação muito além da média brasileira não seriam motivos para crer mais nas ações do que no discurso? Não seria este discurso mais apropriado a atrair o voto petista do que, necessariamente, ser a livre convicção dele?