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terça-feira, 6 de março de 2018

A vida dos outros

A autonomia do Banco Central retornou à ribalta como parte da “Agenda 15”, um conjunto de medidas que o governo pretende tornar prioritárias agora que a reforma previdenciária foi definitivamente legada à próxima administração. Neste contexto voltou ao debate um possível mandato duplo para o BC, contemplando não apenas a meta para a inflação, mas também outra para desemprego. Trata-se de uma péssima ideia, apesar da aparente nobreza de propósito.

A destacar, em primeiro lugar, a diferença entre independência e autonomia no caso do BC. Embora ambas requeiram a fixação de mandatos para os dirigentes da instituição (tipicamente alternados com mandatos presidenciais), um BC independente pode escolher seus próprios objetivos, enquanto no segundo caso a liberdade da instituição se limita à decisão sobre os meios para atingir objetivos determinados pelo executivo.

Assim, por exemplo, o BC independente poderia determinar qual sua meta para a inflação, bem como tomar as decisões de política monetária que acredita corretas; no caso da autonomia, o executivo fixa a meta e o BC, à luz disto, determina a trajetória de taxas de juros consistente com o objetivo. A discussão no Brasil aponta para o segundo arranjo.

Imagine agora um BC autônomo a quem o executivo determina dois objetivos: uma meta para a inflação e outra para a taxa de desemprego, ainda que o BC tenha apenas um instrumento: a política monetária (a taxa Selic).

O problema é que há uma troca de curto prazo entre a inflação e desemprego, embora esta não persista no longo prazo. Caso o BC busque uma taxa de desemprego menor do que a consistente com a inflação na meta acabará fazendo com que esta se acelere.

A aceleração inesperada pode reduzir salários reais e induzir empresas a contratarem mais, reduzindo o desemprego, mas, à medida que a expectativa de inflação mais elevada se incorpora às demandas salariais, este efeito desaparece e, no fim da história, teremos apenas inflação mais alta, sem ganho persistente de desemprego. Pelo contrário, quando o BC tiver que trazer a inflação de volta à meta, haverá aumento de desemprego até que a inflação e as expectativas convirjam, como bem ilustrado pela nossa experiência recente.

Por outro lado, se o BC optar apenas pela meta de inflação, sua diretoria terá que lidar permanentemente com a ameaça de sanções por ignorar a outra perna do mandato. Não é difícil concluir que, sob tal cenário, a autonomia do BC ficaria comprometida.

Pode-se, claro, apontar para o arranjo institucional do Federal Reserve (Fed), cujo mandato abarca inflação, desemprego e taxas de juros (um triplo mandato) como contraexemplo.

Trata-se, porém, de um erro, porque o Fed é independente: apesar do mandato triplo, é ele quem determina seus objetivos. Em particular, há objetivo numérico apenas para a inflação, não para o desemprego, nem para taxas de juros, como expresso aqui: https://www.federalreserve.gov/monetarypolicy/files/FOMC_LongerRunGoals_20160126.pdf.


As práticas internacionalmente consagradas apontam para a inflação como o objetivo do BC. Em que pese a preferência nacional pelas jabuticabas, ao menos neste caso poderíamos tentar aprender com os erros dos outros, já que com os nossos não parecemos aprender jamais.



(Publicado 28/Abr/2018)

Reações:

14 comentários:

Espero que participe do Painel WW.
Faz falta um programa da forma como era elaborado!

Me parece que os políticos querem dar um "jeitinho" para não serem culpads por desemprego.... deu errado? A culpa não é do presidente, governador, ministro... a culpa é do BC! Votem em mim de novo!

por falar em FED...Alex, voce acha que o FED teria algum poder e instrumentos pra evitar formação de bolhas financeiras ou somente resolver o problema depois do estouro. Principalmente nas ultimas duas decadas onde a inflação de preços parece responder menos enquanto a inflação dos ativos reponde muito mais forte a politicas expansionistas. Dificil fazer politica monetaria com esses entraves.

Alex, esse nosso banco central atual é o igual ao tombini, mas enquanto este mirava no intervalo superior, o bc atual mira no intervalo inferior. Ta errado. Inflacao derretendo e esses putos nao reduzem mais fortemente o juro. É facil fazer politica monetaria numa sala de Brasilia e nao perceber que a porra do desemprego é recorde! Enfim, desculpe o termo, mas só que tem tem 3 de 4 familiares desempregados vai entender minha angustia.
Bj, Luiza

Peraí,

1. Vc fala da pratica internacional usando apenas inflação, mas o exemplo da maior economia mundial é diferente

2. Pq entao nao propor uma meta de Longo prazo para IPCA e desemprego? Como alias, mostra ai sim a pratica internacional.

3. Acabou de sair o ipca em 2,58%. Quando é que vc vai responsabilizar o Goldfajn pelo desemprego se ele não tem atingido a meta?

"1. Vc fala da pratica internacional usando apenas inflação, mas o exemplo da maior economia mundial é diferente"

Não. É igual. Você não leu, nem o artigo, nem o link que deixei.

"2. Pq entao nao propor uma meta de Longo prazo para IPCA e desemprego? Como alias, mostra ai sim a pratica internacional."

Porque esta não é a prática internacional...

"3. Acabou de sair o ipca em 2,58%. Quando é que vc vai responsabilizar o Goldfajn pelo desemprego se ele não tem atingido a meta?"

Hã, o desemprego está em queda. Ah, desculpe, esqueci das dificuldades cognitivas...

"Acabou de sair o ipca em 2,58%"

Sério? Mostra 2,58%, por favor?

Alexandre, admiro muito voce, mas o desemprego esta em queda bem suave a partir de um nivel extraordinario. O Banco Central esta errando sim. Perder a meta um ano acontece, mas dois anos seguidos mostra que tem algo estranho. Imagino que nao deva aer facil estar lá, mas se inflacao esta baixa e cadente, o livro texto recomenda reduzir juro. Fosse o Tombini la (ou um Tombini generico) os formadores de opiniao estariam criticando. Mas como o ilan é amigo e da turma, as criticas desaparecem. Bjo, Luiza Castro

"Hã, o desemprego está em queda. Ah, desculpe, esqueci das dificuldades cognitivas..."

É uma piada !
Imagina se fosse o IPCA caindo de 10% para 9,5% e o Bacen não mexesse os juros por causa de uma "inflação cadente".
Mas a queda de desemprego de 12,6% (nov-dez-jan 17) para 12,2 (nov-dez-jan 18) é justificativa para não mexer e ostentado como o grande serviço do Bacen.

Meta acima de 4%aa em país sério é um escandalo
Falam de 2,9% (não é 2,5% como disseram) como se fosse um exagero, perá lá, esses hipócritas deveriam é discutir porque de uma meta tão extravagantemente alta ao invés de ficar choraminguando os 0,1 abaixo que aliás tem peso bem diferente de 0,1 acima. Outra coisa, a selic é parte da história, os titulos do tesouro pagam 5,15%aa + IPCA, esse sim o mercado exige premio alto, a selic hoje na pratica tem mais efeito pro pequeno poupador da poupança, esse ser rentista monstruoso é o velhinho aposentado do inss guardando dinheirinho pro remédio.

Alex, outro dia vi kawal com artigo sugerindo forward guidance pro bc, ao inves de reduzir ainda mais a selic. Na boa, qual a necessidade de fazer forward guidance com tanta lenha de selic ainda pra queimar? Bc tem que reduzir mais essa selic porque a inflacao permite, tanto a efetiva quanto a esperada. Acho que o kawal viajou.

O felipe rezende entao, nem comento. Primeiro, pq nunca entendo com clareza o que ele propoe. Segundo, pq nao tem necessidade de ter meta pra juro longo se ainda temos muito juro curto pra gastar.

Abs
Marcos Junior

"Mas a queda de desemprego de 12,6% (nov-dez-jan 17) para 12,2 (nov-dez-jan 18) é justificativa para não mexer e ostentado como o grande serviço do Bacen."

Não mexer? Da última vez que olhei reduziram a Selic. E vão reduzir de novo. Ah, desculpe: esqueci das suas dificuldades cognitivas

kkkk dificuldades cognitivas e oftalmicas, rsrsrs
Será que eles viram o grande guru tbm está preste a ser preso???

Alex, quando eu somo a taxa internacional com premio de risco e cupom cambial pra calcular a paridade eu devo usar a taxa real de juros internacional, certo? Ou devo usar a taxa nominal?