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terça-feira, 6 de junho de 2017

Volte cinco casas



Os desenvolvimentos políticos recentes podem descarrilar a retomada que parecia ter se iniciado no primeiro trimestre. Como tenho insistido, a natureza da atual crise é eminentemente fiscal: a recessão começou ainda no segundo trimestre de 2014, mas se agravou quando ficou clara a incapacidade do governo reeleito de endereçar o problema das contas públicas.

Esse entendimento levou à disparada do risco-país, que saltou de 1,5-2,0% ao ano, observado de meados de 2013 ao final de 2014, para algo em torno de 2,5% ao ano na primeira metade de 2015, e, prosseguindo em sua escalada, culminou a praticamente 5% ao ano em janeiro do ano passado. Somado ao descontrole inflacionário, isto levou à elevação da taxa de juros, agravando o colapso do investimento.

As coisas começaram a mudar com a perspectiva de alteração da política econômica, que se cristalizou na criação do teto para as despesas federais e progrediu com o andamento da reforma previdenciária no Congresso, em particular sua aprovação pela comissão especial da Câmara no começo deste mês (embora pareça ter ocorrido há décadas).

Não por outro motivo, o mesmo risco-país em meados de maio havia caído ligeiramente abaixo de 2% ao ano pela primeira vez desde o final de 2014, valor ainda elevado, mas sugerindo que os temores quanto à capacidade do governo manter seu endividamento sob controle cediam persistentemente.

Da mesma forma, a estratégia de ajuste fiscal de longo prazo, baseada na combinação do teto para as despesas e reforma previdenciária, afastou o risco da “dominância fiscal”, permitindo o recuo mais vigoroso da inflação a partir do terceiro trimestre do ano passado e, com ela, a recuperação (modesta) dos salários reais e queda expressiva da taxa de juros. Assim, a retomada saiu do terreno especulativo para a realidade.

No entanto, esses ganhos devem se perder com a atual crise política. A reforma previdenciária, cuja probabilidade de aprovação era tida como alta, tornou-se bem mais complicada à medida que a base política da atual administração começa a se dissolver. Caso não seja levada adiante, ou seja ainda mais desfigurada, a sustentabilidade do teto para os gastos fica ameaçada, solapando a estratégia de ajuste.

Por conta disso, taxas reais de juros voltaram a subir: a taxa para dois anos, que caíra a 4,5% ao ano logo antes da divulgação das gravações do inefável Joesley, já superou 5% na esteira da piora das perspectivas para a inflação. Num horizonte mais curto, a quase certeza da redução de 1,25% da taxa Selic em maio foi revista para um corte mais modesto, 1%, enquanto a magnitude do ciclo de afrouxamento vai sendo gradualmente revista. Tais desenvolvimentos jogam contra a retomada.

Isso dito, é bom deixar claro que a adoção de uma política econômica correta não é, nem deveria ser, salvo-conduto para qualquer governante.


Há regras e estas foram, pelo que foi visto até agora, gravemente violadas. Ecoando o que escrevi sobre o impacto da corrupção no crescimento, por vitais que sejam as reformas, a governança do país vem em primeiro lugar, não só no plano econômico, mas, principalmente, no campo ético. Se não resolvermos isto, não há reforma que baste para nos colocar na rota do crescimento sustentado.



(Publicado 31/maio/2017)

Reações:

14 comentários:

Prezado Alexandre.
Obrigado por permitir que eu faça uso de seu blog para transmitir uma mensagem, a meu ver procedente, ao Presidente Michel Temer.
Mensagem para o Presidente Temer
Prezado Michel Temer
Tenho admirado seu governo, sobretudo quando comparado, sem preconceitos, ao mesmo período dos governos de seus antecessores, FHC, Lula e Dilma.
E acredito em suas boas intenções.
Assim, permito-me sugerir:
(a) negocie com o Congresso (em seu todo e não apenas com parte dele, dialogando direta e pessoalmente com os presidentes da Câmara e do Senado) a aprovação de suas propostas de reforma (Teto de Gastos, Previdência, Trabalhista etc.) em troca de sua renúncia à Presidência e à disputa nas eleições de 2018;
(b) submeta-se às decisões do Judiciário sem apelar para recursos protelatórios injustificados.
O País certamente reconhecerá que você não se deixou subjugar pela ânsia de poder característica da grande maioria dos políticos brasileiros.
Cordialmente,
Bruno Maffeo
PS Boa sorte!

Prezado Alexandre

Olhando para frente!! Parece que ninguém freia o juiz Sergio Moro e a sociedade que pensa abraçou este sentimento de tolerância quase zero com a corrupção. Estamos melhor do que antes . O que estamos vendo é a dura e pura realidade que ninguém gosta mas todo mundo sabia que existia . Espero que mais delações aconteçam e que em 2018 possamos ver o Brasil passado a limpo, estamos num período de transição e com os melhores técnicos possíveis para um governo do PMDB . Se a previdência não passar, claro que piora o cenário , mas com a inflação bem baixa , a vida não piora muito até 2018. O ó
timo é inimigo do bom e nos dias atuais pelo menos podemos ir caminhando.

Alexandre,

Entendo que alguns partidos queiram deixar a tal "base governista" para não ter o nome de seu partido associado à de um Presidente que está sob investigação e que provavelmente será condenado (considerando que o PMDB foi o maior "parceiro" do PT). Mas independente disto, me parece que a maior parte destes políticos que estavam com o governo Temer continuariam apoiando as reformas para receberem um Brasil governável em 2018. O que você acha, qual seria sua contagem de apoiadores das reformas mesmo fora do governo? Abraços,

PS. Torço para uma saída parecida como a que o Bruno propôs.

Que po**a de mensagem é essa? Tipo um email pro Temer postado como forma de protesto em um blog financeiro. Kkkk

A coluna de Delfim Netto no Valor de ontem está ótima!

De você, não se poderia esperar posição diferente. Os meios, por mais eficientes que se imaginem, não justificam os fins, no caso, escudar a quadrilha desde sempre conhecida.

O prazo para fazer reformas é até a inflação voltar a subir para 6%, quando o BC terá que subir juros e a bomba volta a se armar. Aí voltaremos a agenda de reformas, elevaremos impostos etc. Adoramos abraçar erros antigos.

de fato a escolha economica versus politica como o PSDB principalmente aparenta estar na duvida é falsa. Para quem pensa em crescimento de longo prazo de fato o politico tem que ser resolvido primeiro infelizmente. Nao podemos mais uma vez tapar o sol com a peneira.

Alex, que tal um artigo futurista supondo não aprovação das reformas e eleição do Lula em 2018, dizendo o que ocorre com Q economia ? Encara?

Eu vejo um descarrilhar atual, as instituições que se mostraram fracas para impedir o saque ao Estado vem sendo enfraquecidas, é a queda da Maria Silvia no BNDES, provável escolha de colete de um Procurador Geral do Ministério Público, novos superientenderes da FUNAI ou Ministério da Agricultura ligados a políticos, criação de Ministérios (ou retorno), criação de cargos de comissão e confiança, e o patético TSE que serve apenas para gastar 2,5bi.

Inclusive já existe um retorno ao debate de ideias econômicas que não deram certo no passado apoiadas na surdina por parte do empresariado, a própria reforma da Previdência tão necessária pode virar um flagelo, por que a nossa história recente o dinheiro poupado irá obras superfaturadas e privilégios, com uma previsão otimista de receita que mais a frente se mostrará impossível.

Sem uma reforma do Estado séria com fins de privilégios, eu sou cético quanto aos resultados da Reforma Previdenciária até por que todos os setores com maiores benefícios estão fora, inclusive a polícia legislativa.


Abs.


Alex, lembro que voce colocou uma informação sobre o índice de Gini sobre a previdência e o Brasil mostrando que se forem analisadas apenas a previdência o Gini era bem maior. Onde encontro esse dado?
Abraço,
Rafael.

Alex, nao lhe parece um absurdo o BC frear o titmo de queda da selic com inflacao sistematicamente surpreendendo pra baixo, bem como com expectativas de inflacao em queda? Bjo Cecilia

Se não me engano, está aqui:

http://www12.senado.leg.br/publicacoes/estudos-legislativos/tipos-de-estudos/textos-para-discussao/td219

"Alex, nao lhe parece um absurdo o BC frear o titmo de queda da selic com inflacao sistematicamente surpreendendo pra baixo, bem como com expectativas de inflacao em queda? "

Para mim o tamanho do ciclo é bem mais importante do que o ritmo. Se parasse de cortar juro hoje, sim seria um absurdo.

Isto dito, desconfio que a queda de 100 bps acabará voltando ao cenário.