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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Paladinos da estagflação


Tenho afirmado, assim como outros economistas, que as pressões sobre a inflação vêm do mercado de trabalho, pois a atual escassez de mão-de-obra implica elevação dos salários nominais a um ritmo superior ao da expansão da produtividade, com consequências diretas para os preços.

Com efeito, se o salário aumenta 10%, mas cada trabalhador consegue produzir 10% a mais, o custo por unidade produzida permanece inalterado; no entanto, o mesmo aumento salarial num ambiente em que a produtividade cresce apenas 1% implica elevação do custo por unidade da ordem de 9%. Estes números, a propósito, não são muito distantes dos observados recentemente no Brasil.

Nos setores onde não há concorrência externa a tendência é que preços sigam de perto a evolução do custo unitário e achamos sólidas evidências de que isto tem sido verdade, expressas, por exemplo, na elevada correlação entre estimativas de custos unitários e a inflação de serviços.

Há quem argumente que estas pressões podem ser atenuadas pela expansão mais rápida do produto por trabalhador, mas provavelmente sem ter atentado para a magnitude da sua distância relativamente ao crescimento dos salários, muito menos se dado ao trabalho de estimar o comportamento desta variável nos últimos anos. Caso tivessem, notariam que, mesmo no seu melhor momento, impulsionado pela recuperação cíclica de 2010, o produto por trabalhador não conseguiu se expandir mais do que 5%, e isso somente num solitário trimestre.

À luz destes dados, não há alternativa realista para redução da inflação que não passe pela moderação dos aumentos salariais. Porém, se os salários sobem hoje em larga medida por conta do baixo desemprego, a conclusão é que este nível de desemprego é incompatível com a inflação próxima à meta de 4,5%.

Aqui aparece a pergunta inevitável: mas vale a pena elevar o desemprego para reduzir a inflação que, afinal de contas, está só 2% acima da meta?

À primeira vista isto parece mesmo um despropósito. Vamos condenar alguns milhões de pessoas a perderem seus empregos apenas porque a inflação está um tanto mais alta?

Ocorre que esta questão parte do pressuposto que há uma troca estável e permanente entre inflação e desemprego e que, portanto, caberia ao governo, representante das preferências nacionais, escolher uma combinação de inflação e desemprego que deixasse a população o mais feliz possível. Esta suposição, porém, é falsa.

Nos anos 60 e 70 houve países que tentaram conduzir exatamente este tipo de política, com resultados lamentáveis, devidamente antecipados por economistas como Edmund Phelps e Milton Friedman. Ambos notaram que esta troca entre inflação e desemprego é possível exclusivamente no curto prazo, enquanto os trabalhadores e empresas não incorporam expectativas de inflação mais alta.

A partir do momento em que estas expectativas se materializam em reivindicações de salários (e preços) mais elevados, os ganhos de emprego somem e só sobra a inflação mais alta. Apenas a aceleração não antecipada da inflação consegue novos (e temporários) ganhos. Esta dinâmica explica muito da combinação perversa de inflação e desemprego altos e crescentes (estagflação) que assolou as economias desenvolvidas na segunda metade dos anos 70.

Quando estes países finalmente acordaram para o problema, tiveram que passar por processos recessivos extremamente dolorosos para reduzir a inflação, gerando taxas de desemprego bem mais altas do que ocorreria caso o problema fosse tratado mais cedo. A lúgubre escolha não é, pois, entre desemprego e inflação, mas sim entre desemprego hoje e desemprego mais elevado amanhã.

Com uma eleição a vencer e um BC submisso não é surpreendente que a segunda alternativa seja a preferida por qualquer político. O triste é saber que não faltam economistas para justificá-la, apelando para a falácia que a política é sempre o mais importante. 


Que argumento a madame quer que eu defenda?

(Publicado 22/Mai/2013)

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O ministro e as passas


Depois do insucesso dos últimos anos, nosso Ministro da Fazenda, autodenominado “levantador de PIB”, parece ter desistido do halterofilismo econômico. Agora, diz o ministro, “a geração de empregos formais no País é tão ou mais importante do que o PIB”. Caso algum dos 18 leitores tenha uma epifania com uma raposa desprezando um suculento cacho de uvas peço não se culpe pelo clichê; também passei por isto e concluí que o problema não era meu, mas do ministro, que não consegue escapar dos clichês nem quando o país enfrenta uma situação inédita. Ou melhor: não consegue escapar deles principalmente quando o país enfrenta uma situação inédita.

De fato, o ministro – conhecido na imprensa internacional como o duende previsor –prometia até há pouco crescimento acelerado do PIB e publicamente fez pouco de previsões do setor privado que apontavam para um desempenho muito inferior àquele por ele garantido. Agora, finalmente percebendo o otimismo exagerado das suas “previsões”, tenta, de forma nada discreta, um recuo, nem tático, nem estratégico, apenas lento o suficiente para não passar (muita) vergonha, mas rápido o bastante para não parecer provocação.

À parte o constrangimento provocado por este triste espetáculo, o preocupante é a dificuldade do governo em entender o que vem ocorrendo, em particular a vagarosa retomada do crescimento num cenário em que a inflação permanece alta e pressionada.

Esta combinação é o resultado típico de uma economia que enfrenta restrições pelo lado da oferta. Não se trata, é bom deixar claro, dos tais “choques de oferta” aos quais uns tantos ainda atribuem (contra um caminhão de evidências em contrário) a aceleração da inflação. Estas limitações refletem problemas mais sérios e persistentes, como o esgotamento da disponibilidade de mão-de-obra, que permitiu a aceleração do crescimento a partir da segunda metade da década passada, bem como o nível reduzido do investimento, em particular em infraestrutura.

Posto de outra forma, o desempenho recente sugere que a capacidade de crescimento sustentável do Brasil é muito inferior àquilo que imaginávamos. No entanto, se há economistas capazes de entender o problema, não estão no Ministério da Fazenda, que permanece ainda preso à visão que atribui o fraco crescimento à demanda deficiente.

Não por outro motivo as medidas tomadas com o objetivo de acelerar a expansão da economia têm como foco precisamente a demanda, como incentivos ao consumo e uma considerável expansão fiscal, seja pela via da desoneração tributária, seja pelo aumento do gasto federal, com ênfase no gasto corrente. E, não por outro motivo, fracassaram fragorosamente na tarefa de trazer o crescimento para qualquer nível próximo daquele que o governo havia estabelecido como seu objetivo no começo do mandato.

Sem as uvas do PIB, restam, portanto, as passas do desemprego na lista de realizações governamentais. Nada mal para quem, como eu, as aprecia, mas aí precisamos saber se a façanha é sustentável, ou se, pelo contrário, acaba gerando novos problemas que inviabilizem sua permanência.

No caso, como tive a oportunidade de argumentar diversas vezes neste espaço, a elevação dos salários por conta do mercado de trabalho apertado, a um ritmo muito acima do crescimento da produtividade, tem sido um dos principais fatores impulsionando a inflação. Apesar disto, é muito pouco provável que esta questão venha a ser abordada, sobretudo às vésperas da eleição.

Isto dito, a teoria econômica e a experiência histórica sugerem que se trata de situação insustentável. Tentativas de manter o desemprego reduzido à custa de inflação alta produzem apenas mais inflação sem ganhos persistentes de emprego. Cedo ou tarde mesmo as passas ficarão verdes e não haverá fabulista capaz de escrever uma história convincente sobre o nosso desempenho.


Levantando o PIB...

(Publicado 14/Mai/2013)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Éramos felizes (e eu sabia)


A balança comercial registrou déficit de US$ 6,1 bilhões no primeiro quadrimestre do ano. Temos que recuar até 2001 para achar um déficit comercial neste mesmo período (no caso, modestos US$ 561 milhões) e, por mais que voltemos no tempo, não há registro de déficits de magnitude comparável ao de agora.

É verdade que, em parte, o resultado do período está contaminado por uma mudança na contabilização das importações de petróleo: importações realizadas no ano passado foram registradas apenas este ano, melhorando o resultado de 2012 ao custo de piorar o de 2013. Ainda assim, mesmo se desconsiderarmos este problema, é inegável a tendência de piora da balança, que ocorre – não sem um leve toque de ironia – desde que o governo se engajou numa política deliberada de desvalorização da moeda para proteger a indústria das importações, assim como estimular as exportações de manufaturados.

Obviamente isto não significa que a deterioração das contas externas resulta da desvalorização da moeda, mas serve para ilustrar como a balança depende de uma gama muito mais vasta de fatores do que a visão unidimensional da taxa de câmbio, favorecida pelos nossos “keynesianos de quermesse”, consegue compreender.

Em particular, não há como ignorar o nível reduzido da taxa de desemprego no país, sugerindo que, se a economia não trabalha a pleno emprego, não parece muito distante dele. Nestas circunstâncias, certas respostas são muito diferentes daquelas com que estávamos acostumados quando a economia operava com folga considerável, em particular no mercado de trabalho.

Quando o desemprego é alto, a expansão da demanda tende a se traduzir em aumento da produção tanto da indústria quanto dos serviços, já que ambos os setores têm condições de contratar a mão-de-obra até então desocupada sem grande pressão sobre os salários. Já numa situação como a de hoje, o mesmo crescimento da demanda implica respostas muito diferentes em cada setor.

A maior demanda por serviços precisa, com raras exceções, ser satisfeita pela expansão da produção local, levando ao crescimento do emprego no setor. Concretamente, com o desemprego baixo, isto tende a elevar o salário real em ambos os setores, mas, como o setor de serviços está naturalmente protegido da concorrência externa, estes aumentos podem (e são) repassados aos seus preços, o que explica a elevada (8,1%) inflação de serviços. Já no setor industrial o repasse é limitado pela concorrência externa e, portanto, o aumento salarial “come” a margem de lucro, expressão da perda de competitividade.

A tendência, pois, é que o emprego se expanda no setor de serviços relativamente à indústria, assim como a produção. Deste modo, enquanto o maior consumo de serviços é satisfeito localmente, o aumento do consumo de manufaturas, com a economia próxima ao pleno emprego, passa a ser atendido pela expansão das importações.

Isto já vem acontecendo há algum tempo, mas, até recentemente, era parcialmente neutralizado pelo aumento dos preços internacionais das commodities relativamente às manufaturas. Sendo o Brasil um exportador líquido de commodities, seu encarecimento permitia ao país obter mais manufaturas por unidade exportada.

Assim, embora a quantidade importada aumentasse, seus efeitos sobre a balança foram significativamente atenuados pelo maior valor das exportações. Não por outro motivo, sempre tachei de míopes as lamentações governamentais quando os preços de commodities subiam, assim como suas comemorações em caso de queda.

Sem preços crescentes de commodities para compensar a maior demanda por importações, a tendência do saldo comercial é se reduzir em resposta à elevação da demanda interna e da resposta assimétrica da produção. Como se vê, há muito mais entre o céu e terra do que nossos “keynesianos de quermesse”, e sua manipulação da taxa de câmbio, podem imaginar.

Uso obrigatório no Ministério da Fazenda


(Publicado 8/Mai/2013) 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Inflação “basal” e atrocidades derivadas


Primeiro negaram que a inflação fosse se acelerar. Quando acelerou, inventaram que se tratava de um “choque de oferta”, contra o qual a política monetária seria impotente. Agora que a Selic começou a subir, a modinha é falar da “inflação basal” (nome novo para a velha – e desmentida – “inflação estrutural” dos anos 50 e 60) para justificar propostas estapafúrdias, que ignoram tanto a teoria econômica como a experiência nacional e internacional sobre o assunto.

Os suspeitos de sempre, por exemplo, defendem elevar a meta de inflação. Como a “inflação basal” seria alta, a alternativa seria acomodá-la por meio de uma meta maior. Trata-se de uma atrocidade e explico o porquê.

Imaginemos, para começar, um país cujo BC, ao contrário do nosso, tenha credibilidade, em que se anuncie uma meta futura de inflação, digamos, 1% acima da existente. Neste caso, as expectativas de inflação futura imediatamente se ajustam 1% para cima.

Isto acelerará a inflação corrente, pois, sabendo que esta irá subir à frente, empresas e trabalhadores elevarão hoje seus preços e salários. Neste caso, o BC, para manter a inflação presente na meta terá que elevar a taxa nominal de juros por mais do que 1%, ou seja, aumentará a taxa real de juros, levando a um crescimento menor do produto. Ao contrário do que nossos “keynesianos de quermesse” imaginam, elevar a meta futura de inflação forçaria o BC a reduzir o crescimento atual.

Pode parecer que ignoro o efeito da inflação passada sobre a inflação corrente, mas não é o caso. Mesmo que tanto a inflação passada quanto a futura influenciem na formação de preços hoje, a primeira é um dado que não se altera com o anúncio da nova meta. Já os efeitos decorrentes do canal das expectativas continuam valendo, mesmo na presença de inércia, de modo que a elevação da meta futura acaba implicando juros nominais e reais mais altos do que no caso de manutenção da meta.

É verdade que, por hipótese, trabalhamos com um BC crível, de modo que o mero anúncio de uma meta de inflação basta para fazer com as expectativas convirjam para aquele valor. Esta suposição não é, obviamente, uma boa descrição da nossa situação atual, como expresso pelas expectativas de inflação que se cristalizaram pouco mais de 1 ponto percentual acima da meta, tanto para 2013 como para 2014.

O que ocorreria neste caso se a meta fosse alterada para 5,5%, próxima às expectativas hoje vigentes?

Economistas ingênuos podem acreditar que as expectativas ficariam inalteradas. Isto, porém, ignora a percepção deteriorada dos agentes acerca do compromisso do BC com a meta. Muito mais provável seria a elevação adicional das expectativas levando em consideração a incapacidade do BC em entregar a inflação na meta, permanecendo acima dela desde 2010. Ou seja, a mesma dinâmica descrita acima permanece válida, com a agravante que – com a credibilidade combalida – a inflação esperada (e, portanto, a efetiva) continuaria a superar a meta.

A proposta de elevação da meta simplesmente desconsidera que agentes econômicos não ficam passivos em face de alterações nos parâmetros de política econômica, mas, pelo contrário, tratam de se adaptar o mais rapidamente possível às novas circunstâncias.

Este mesmo erro aparece em outra das sugestões mágicas, a saber, a extensão do período de convergência à meta, mas, antes de tratar dele, não posso deixar de sugerir aos autores da proposta que, por obséquio, antes de falar qualquer coisa, tenham a bondade de olhar os números para notar já tivemos quatro anos para trazer a inflação de volta à meta, sem sucesso. A verdade é que a convergência lenta já está em vigor e, de forma nada surpreendente, não funcionou.

Para entender a razão, voltemos ao caso do BC com credibilidade, mas suponhamos que ele resolva seguir o sábio conselho acima e alongue o período de convergência, digamos, para 3 anos, após a inflação ter atingido 7,5% contra uma meta de 4,5%.

Deve ser óbvio que, sob estas circunstâncias, a expectativa ótima de inflação não será a meta, mas alguma coisa entre a inflação passada e meta (por exemplo, 6,5% no primeiro ano, 5,5% no segundo e, finalmente 4,5% no terceiro). Posto de outra forma, a convergência lenta à meta faz com que as expectativas passem a incorporar a inflação passada. 

A indexação – que vários destes economistas citam como motivo para alongar a convergência – acaba sendo, na verdade, resultado desta estratégia. Também neste caso, a desconsideração da reação dos agentes econômicos leva a propostas equivocadas de política.

Resumindo, não apenas não há a tal “inflação basal”, como as propostas para lidar com este “problema” apenas piorariam o problema real, a saber, a perda de credibilidade do BC, manifesta em expectativas teimosamente superiores à meta. A solução, simples, mas politicamente inviável a pouco mais de um ano da eleição, consiste na adoção de um conjunto de políticas, fiscal e monetária, consistentes com inflação mais baixa, isto é, um superávit primário (de verdade, por favor) mais elevado e um BC firmemente comprometido com sua tarefa institucional. O resto é diversão.

- Pode subir a meta; não vejo problema.


(Publicado 1/Mai/2013) 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Jogo de empurra


Os sinais de piora do desempenho fiscal do país se avolumam. Há pouco o secretário do Tesouro anunciou que o governo federal deixaria de elevar seu superávit primário para compensar eventuais desvios de estados e municípios. Mais recentemente voltou à carga, avisando que “em 2013 e 2014, e provavelmente será essa a política em 2015 e 2016, o superávit primário será sempre uma variável da economia e não mais da dívida pública em si”.

Gramática trôpega à parte, trata-se da velha tentativa de vender a incapacidade do governo atingir a meta fiscal como se fosse uma política deliberadamente anticíclica, isto é, de redução do superávit em anos de fraqueza da economia, a ser compensada pelo seu aumento em anos melhores. Aliás, não por coincidência o anúncio coincidiu com a divulgação da queda de 41% no superávit primário federal.

O próprio enunciado acima deixa clara a natureza do problema. O governo alegremente gasta mais quando considera que o desempenho econômico é inferior àquilo que gostaria de obter em termos de crescimento. Já a segunda parte, a redução dos gastos quando a economia tem um desempenho melhor, é uma promessa – ao contrário da primeira – jamais cumprida.

Isto, porém, é mais do que sabido e não vale nova discussão aqui, apesar da repetida insistência governamental no conto da política anticíclica.

A questão que quero analisar hoje é a definição do gatilho que deflagraria a política supostamente anticíclica. Parece claro que a motivação para este tipo de medida é a premissa que o crescimento depende apenas da demanda. Assim, quando o crescimento atinge níveis que o governo julga baixos, seria seu papel acelerar a expansão do produto por meio do aumento do gasto (ou redução de tributos).

O problema é que, como a evolução recente da economia brasileira tem ilustrado, o baixo crescimento pode não resultar da fraqueza da demanda, mas da incapacidade de expansão da oferta. Posto de outra forma, o que o governo toma como redução do crescimento relativamente ao potencial da economia pode ser, na verdade, a expressão de que o crescimento potencial pressuposto é exagerado.

Concretamente, a experiência do período 2004-2010 parece ter cristalizado, em particular no Ministério da Fazenda, a visão que a capacidade de expansão do país seria algo na faixa de 4% a 4,5% ao ano. Quando, portanto, o crescimento ficasse abaixo disto a política fiscal deveria se tornar expansionista (e nem menciono o vice-versa, que na prática nunca aconteceu).

Ocorre que, como já argumentei aqui, muito embora o crescimento médio entre 2004 e 2010 tenha, de fato, ficado nestes níveis, este ritmo não poderia ser tomado como medida de potencial do país por um motivo bastante simples: a taxa de desemprego caiu de forma sistemática no período. Caso aquele ritmo fosse próximo ao potencial, a taxa de desemprego teria ficado estável.

Não é por outro motivo que até o BC admite que o crescimento mais lento se deve a “limitações do lado da oferta”, expressas, segundo seu Diretor de Política Econômica, num potencial modesto, na faixa de 3% ao ano, um dos motivos que induziu o Copom a iniciar seu arremedo de aperto monetário.

Por conta disto temos BC e Tesouro empurrando a economia em direções opostas, um tentando timidamente segurar a demanda, outro preocupado em estimulá-la (e ninguém pensando em como expandir a oferta).

Obviamente, o BC, constrangido, subirá apenas modestamente a taxa de juros, enquanto o Tesouro deverá seguir reduzindo o superávit primário, além de ter dado rédeas livres para que estados e municípios façam o mesmo, não por acaso a um ano das eleições.

Não é necessária uma bola de cristal para saber quem ganhará o jogo. Já os verdadeiros perdedores somos nós, que pagamos pela inflação resultante desta combinação de política. A barriga empurra a conta e, quando vier a cobrança, ainda nos lamentaremos destas estripulias fiscais.

Um BC comprometido

(Publicado 30/Abr/2013)

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Entrevista não publicada


A matéria sobre “inflação basal” usou pouco da entrevista. Assim resolvi publicá-la completa aqui no blog (é para isso que serve, não?).

1 - Tem fundamento a afirmação de que o Brasil tem uma inflação de base e que ela gira em torno de 5% e 6%?

Não. Isto é uma tentativa de ressurreição de uma tese antiga, a “inflação estrutural”, lá dos anos 50 e 60, à época desmentida pela tese de doutorado do Pastore.

No caso atual, não é necessário mais do que olhar a trajetória da inflação para observar que não apenas ela alcançou valores inferiores aos 5-6% mencionados, como também o fez com crescimento mais forte do que temos hoje. No período 2005-2009, uma vez superados os efeitos da transição política, o desvio da inflação relativamente à meta foi quase 0%. Mesmo se incorporarmos 2010 à amostra, já com o BC enfraquecido (por exemplo, parando inexplicavelmente o processo de alta de juros em setembro de 2010),  a inflação superou a meta em média 0,3% ao ano. Não por acaso, as expectativas de inflação 12 meses à frente entre o final de 2005 e o final de 2010 se mantiveram sempre em torno de 4,5% (na verdade 4,4%), revelando que o BC tinha conseguido ancorar as expectativas.

Obviamente, mesmo se o BC consiga ancorar as expectativas, como a meta é alta e o governo nunca perdeu a oportunidade de perder a oportunidade de reduzir a meta, a inflação não se descolaria muito de 4,5%. Caso tivesse reduzido a meta para níveis similares aos de outros países latino-americanos adeptos do regime de metas, poderíamos – com um BC disposto – ter registrado inflação em torno de 3% ao ano.

2 - Se sim, a que se deve essa resistência? E como eliminá-la? Se não, por que, desde 2000, o Brasil só teve inflação abaixo de 5% em três anos (2006, 2007 e 2009)?

Sim, mas a meta de inflação foi superior a 5% de 1999 a 2005 (em 2001, 2002,  2003, 2004 e 2005 a meta oficial era inferior a 5%, mas, na prática as metas ajustada eram superiores a este patamar). Desde a adoção da meta de 4,5% (em 2006) o BC manteve a inflação em média próxima à meta até perder a autonomia informal de que dispunha. No caso, a resistência da inflação se deve, em primeiro lugar, à insistência de manter a meta em 4,5%, mesmo quando expectativas rodavam abaixo disso. Mais recentemente se deve à subordinação do BC aos objetivos políticos do governo. Basta ver que só pode elevar a Selic agora depois de uma comissão (externa ao governo, diga-se) convencer a presidente.

3 - Como avalia a afirmação de que dois pontos a mais de inflação (além do centro da meta) não faz diferença na vida do brasileiro, uma vez que os salários seguem em alta?

Acho de uma miopia atroz. Embora seja verdade que os aumentos salariais tenham superado a inflação, à medida que a inflação acelera – refletindo, entre outras coisas – o próprio impacto do aumento dos salários sobre os preços, a manutenção dos salários reais requer novas rodadas de elevações salariais. Expectativas de inflação mais elevada são incorporadas aos salários e temos uma clássica espiral salário-preços, na linha da observada, por exemplo, nos EUA e no Reino Unido nos anos 70.

Este processo é instável e, quando finalmente o Fed (e o Banco da Inglaterra) foram tratar o problema, ambas economias tiveram que passar por uma recessão extraordinária.

Hoje o desvio é de 2 pontos percentuais. Se não for tratado agora, será mais bem mais alto em poucos anos e o custo de reduzir a inflação será muito maior do que hoje, assim como hoje já é bem maior do que seria se tivesse sido tratado em 2010-2011.

4 - Em junho, o CMN definirá meta de inflação para 2015. Belluzzo, por exemplo, já defendeu elevar a meta. Com a crise na Europa e EUA, economistas mundo afora têm defendido flexibilidade no objetivo, diante de dificuldades em produzir crescimento. Seria o caso de flexibilizar a meta aqui também?

No ranking das ideias cretinas elevar a meta fica numa posição privilegiada. Faz sentido para países que enfrentam ameaça de deflação (ou deflação propriamente dita). Já no Brasil, cujo problema é o oposto, caso se eleve a meta, as expectativas também irão se elevar, ainda mais com o um BC percebido como submisso. As demandas salariais e preços passam a refletir uma inflação esperada mais alta e a inflação se acelera sem qualquer ganho de produto. Não é por acaso que o Palmeiras foi parar na Segundona.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Complexo de vira-lata


Nelson Rodrigues criou a expressão “complexo de vira-lata” após a derrota sofrida na final da Copa de 1950, traduzindo um sentimento crônico de inferioridade nacional, inicialmente restrito ao campo do futebol e mais tarde abrangendo uma vasta gama de atividades (não mais o futebol!). Muito embora o governo faça questão de afirmar a superação do “complexo de vira-lata”, é visível o papel desta síndrome na mais recente onda de desculpas sobre o desempenho lamentável no campo da inflação.

Tanto membros da equipe econômica como colunistas automaticamente alinhados com o governo têm destacado que as taxas de inflação observadas atualmente não diferem muito da média registrada desde o início do regime de metas para a inflação. Neste período a inflação média atingiu 6,3% ao ano, apenas ligeiramente abaixo dos níveis recentes.

Assim, segue o argumento, não haveria nada de errado com a inflação atual. De forma mais sutil (mas que parece impregnar o pensamento inclusive do Banco Central), este tipo de colocação tenta ressuscitar a tese que a inflação brasileira seria naturalmente elevada por conta de “problemas estruturais” que tornariam mais difícil sua redução sem enorme custo do ponto de vista de atividade. Daí a noção que a inflação só cairia com o uso de outros instrumentos (reformas, mudança no perfil da dívida pública, etc.), terminando por concluir pela postergação constante do momento de atacar o problema de frente.

Nada mais falso. A começar pelo argumento da média que, parafraseando expressão algo sexista (desculpem!) atribuída, como tantas outras, a Roberto Campos, a média é como o biquíni: revela o interessante, mas oculta o essencial.

Em primeiro lugar, a média simples deixa de lado as mudanças da meta de inflação no período: começou com 8% em 1999 e é hoje de 4,5%, passando por até 8,5% (meta ajustada) em 2003. O correto, portanto, não é analisar o nível da inflação, mas seu desvio relativamente à meta: 1,5% ao ano no período.

Mais importante, porém, é a distribuição deste desvio, quase todo concentrado em dois anos: 2001 (ano do “apagão” e da crise argentina) e 2002 (a transição política). De fato, logo no primeiro governo Lula a média do desvio da inflação foi 0,5% ao ano, aumentando levemente para 0,6% ao ano no segundo governo (contra crescimento médio do PIB, diga-se, de 3,5% e 4,5% ao ano respectivamente). Não foi o ideal, mas bem melhor do que temos observado até agora (desvio médio de 1,7% nos dois primeiros anos do atual governo e expectativas de 1,2% ao ano em 2013 e 2014).

Já no que se refere à comparação do desempenho com os demais países da América Latina que adotam metas para a inflação, o Brasil não fazia feio, registrando desvio pouco superior à média (e mediana) entre 2004 e 2010. Hoje, pelo contrário, o país lidera sozinho o campeonato inflacionário dentre os países latino-americanos com regime monetário semelhante.

Estes números sugerem não haver nada de “estrutural” na incapacidade de entregar a inflação mais próxima da meta, além do recém-redescoberto “complexo de vira-lata”.  Não apenas tínhamos desempenho alinhado ao de países sujeitos a choques similares, mas, principalmente, nossa história mostra que um Banco Central mais decidido foi capaz de entregar a inflação bem mais próxima à meta do que parece ser possível hoje, sem prejuízo ao crescimento de médio e longo prazo.

A inflação alta não se deve a “choques externos”, nem à incapacidade congênita do país; resulta, sim, da adoção de políticas incompatíveis com a convergência à meta, característica, aliás, que não vai se alterar com o arremedo de aperto monetário prometido pelo Copom. A diferença essencial entre o Brasil de hoje e o de pouco tempo atrás se resume ao cabresto imposto ao BC e docilmente aceito pela instituição, também vítima do “complexo de vira-lata”.

Não dá, é muito difícil, não dá...

(Publicado 24/Abr/2013)

sábado, 20 de abril de 2013

Clóvis Rossi, o anti pundit


A palavra inglesa ‘pundit’ é uma variante do term ‘pandit’ em sânscrito, que denota um indivíduo de grande conhecimento. O termo ‘pundit’ é usado para descrever intelectuais públicos que pontificam sobre temas variados, tanto nas colunas de comentários dos jornais quanto nos programas de televisão.

Clóvis Rossi é um anti-pandit. Ele discorre sobre os mais variados temas, e não importa qual seja o assunto, invariavelmente, fala estultices e jequices, como se fora um buraco negro que devora qualquer informação e cospe ignorância.

Vejamos o que Clóvis Rossi disse sobre os rapazes chechenos que foram filmados e fotografados levando as bombas que mataram 3 e aleijaram dezenas em Boston:

“No caso de Boston, o que diabos faziam dois tchetchenos vivendo em Cambridge, como está sendo informado?

Pode uma pergunta estar errada? 

Com Clóvis Rossi, pode!

Primeiro, o irmão mais novo não era checheno, mas um cidadão dos EUA. Por ter nascido no exterior, não pode ser presidente, mas exceto este detalhe, é tão americano quanto Hollywood ou a torta de maçã.

Segundo, se Clóvis Rossi não fosse um jeca ignorante, saberia que em qualquer das maiores áreas urbanas dos EUA (ou do Canadá, Europa Ocidental), existem chechenos, somalis, etíopes, vietnamitas, palestinos, haitianos etc.  Não existe nada surpreendente nisto.

Terceiro, 'o que diabos eles faziam' lá? Que tipo de idiota faz uma pergunta destas?


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Inflação, tomates e outros pepinos


O carnaval em torno do preço do tomate pode levar alguns a acreditar que o vegetal em questão seja o grande vilão da escalada inflacionária. Não é o caso. Embora seja verdade que seu preço tenha subido mais do que 120% nos últimos 12 meses, justificando a ira dos consumidores, seu peso é pequeno no orçamento médio considerado pelo IBGE. Há um ano era apenas 0,18% (ou seja, de cada R$ 100 gastos apenas 18 centavos eram destinados ao tomate); hoje são 33 centavos a cada R$ 100.

Assim, da inflação de 6,59% registrada nos últimos 12 meses, considerando participação média do tomate no orçamento familiar, sua contribuição foi de 0,22%. Por outro lado, a redução de 16% das tarifas de energia elétrica no mesmo período contribuiu para reduzir o índice de preços em 0,52%, já que este item representa cerca de R$ 3,30 para cada R$ 100 gastos.

Há, portanto, produtos que empurraram o índice ladeira acima, assim como outros que agiram no sentido oposto. Se quisermos determinar se o IPCA mais alto é mesmo o resultado de uns poucos aumentos pontuais de preços, ou se, ao contrário, reflete desequilíbrios mais profundos, não faz sentido destacar apenas os primeiros, desconsiderando o efeito dos segundos.

Precisamos, portanto, analisar medidas de inflação que atenuem o efeito dos preços mais voláteis, os chamados núcleos de inflação. Caso os núcleos contem uma história muito diferente da inflação “cheia”, por exemplo, mostrando taxas de inflação muito inferiores à registrada pelo IPCA, há boa chance da aceleração inflacionária ser resultado de um choque localizado, como preços de alimentos. Já se as histórias são semelhantes, fica difícil justificar a inflação mais alta apenas como fruto do preço do tomate.

Dentre estas medidas, uma das mais simples consiste no expurgo dos preços de alimentos (justamente para eliminar os efeitos de choques de oferta), assim como dos “preços administrados”, na prática determinados por contratos de prazo mais longo e decisões governamentais (combustíveis, por exemplo). De acordo com ela, os preços dos produtos que não são alimentos nem “administrados” subiram à velocidade média de 6,46% nos últimos 12 meses, apenas marginalmente inferior à inflação “cheia”.

Há outras medidas de núcleos de inflação (são cinco!), mas a conclusão é essencialmente a mesma. A média delas aponta para inflação de 6,11% em 12 meses, sugerindo que, ao contrário da versão oficial, a aceleração não se deve a alimentos, ou a qualquer grupo de produtos em particular.

De fato, complementando a análise acima podemos utilizar outra medida, o “índice de difusão”, que mede simplesmente a proporção de produtos dentre os 365 componentes do IPCA cujos preços tenham aumentado no mês. O raciocínio é semelhante ao exposto acima: caso a aceleração do IPCA resulte de um punhado de produtos, enquanto a maioria registra estabilidade ou queda, o índice de preços provavelmente estará capturando o efeito de um choque localizado; já indicações que os aumentos de preços são disseminados sugerem que o problema é mais profundo.

Ocorre que, desde julho do ano passado o indicador de difusão tem registrado valores recordes em todos os meses (desde 2005, quando a meta de inflação foi fixada em 4,5%), também uma indicação que não se trata da elevação de uns poucos preços afetando a medida de inflação, mas de um aumento generalizado.

Os números acima desmentem, portanto, a narrativa oficial, que insiste em atribuir aos alimentos o protagonismo na aceleração da inflação. As causas são mais profundas, refletindo políticas incompatíveis com a inflação na meta.

Lendo, porém, que no Planalto avalia-se que crescimento de 3% e inflação ao redor de 6% bastam para garantir a reeleição, fica claro que o verdadeiro pepino não é o tomate, mas ambições de continuidade política sem preocupação genuína com o bem-estar da população.

O verdadeiro vilão


(Publicado 17/abr/2013)

terça-feira, 16 de abril de 2013

Entrevista à Exame