Tenho afirmado, assim como outros
economistas, que as pressões
sobre a inflação vêm do mercado de trabalho, pois a atual escassez de mão-de-obra implica elevação dos salários
nominais a um ritmo superior ao da expansão da produtividade, com consequências diretas para os preços.
Com efeito, se o salário aumenta 10%, mas cada trabalhador consegue produzir
10% a mais, o custo por unidade produzida permanece inalterado; no entanto, o
mesmo aumento salarial num ambiente em que a produtividade cresce apenas 1%
implica elevação do custo por unidade da ordem de 9%. Estes
números, a propósito, não são muito distantes dos observados recentemente no Brasil.
Nos setores onde não há
concorrência externa a tendência é que
preços sigam de perto a evolução do custo unitário e achamos sólidas evidências
de que isto tem sido verdade, expressas, por exemplo, na elevada correlação entre estimativas de custos unitários e a inflação de
serviços.
Há
quem argumente que estas pressões podem ser atenuadas pela expansão mais rápida
do produto por trabalhador, mas provavelmente sem ter atentado para a magnitude
da sua distância relativamente ao crescimento dos salários, muito menos se dado
ao trabalho de estimar o comportamento desta variável nos últimos anos. Caso
tivessem, notariam que, mesmo no seu melhor momento, impulsionado pela
recuperação cíclica de 2010, o produto por trabalhador não conseguiu se
expandir mais do que 5%, e isso somente num solitário trimestre.
À luz destes dados, não há
alternativa realista para redução da
inflação que não passe pela moderação dos aumentos salariais. Porém, se os salários
sobem hoje em larga medida por conta do baixo desemprego, a conclusão é que
este nível de desemprego é incompatível
com a inflação próxima à meta
de 4,5%.
Aqui aparece a pergunta inevitável: “mas
vale a pena elevar o desemprego para reduzir a inflação que, afinal de contas, está só 2%
acima da meta”?
À primeira vista isto parece mesmo um despropósito. Vamos condenar alguns milhões de pessoas a perderem seus empregos apenas porque a
inflação está um tanto mais alta?
Ocorre que esta questão parte do pressuposto que há uma troca estável e
permanente entre inflação e desemprego e que, portanto, caberia ao
governo, representante das preferências
nacionais, escolher uma combinação de
inflação e desemprego que deixasse a população o mais feliz possível. Esta suposição, porém, é falsa.
Nos anos 60 e 70 houve países que tentaram conduzir exatamente este tipo de política, com resultados lamentáveis, devidamente antecipados por economistas como Edmund
Phelps e Milton Friedman. Ambos notaram que esta troca entre inflação e desemprego é possível exclusivamente
no curto prazo, enquanto os trabalhadores e empresas não incorporam expectativas de inflação mais alta.
A partir do momento em que estas expectativas
se materializam em reivindicações de
salários (e preços) mais elevados, os ganhos de emprego somem e só sobra a inflação
mais alta. Apenas a aceleração não antecipada da inflação consegue novos (e temporários) ganhos. Esta dinâmica explica muito da combinação perversa de inflação e desemprego altos e crescentes (“estagflação”) que assolou as economias desenvolvidas na segunda
metade dos anos 70.
Quando estes países finalmente acordaram para o problema, tiveram que
passar por processos recessivos extremamente dolorosos para reduzir a inflação, gerando taxas de desemprego bem mais altas do que ocorreria
caso o problema fosse tratado mais cedo. A lúgubre escolha não é,
pois, entre desemprego e inflação,
mas sim entre desemprego hoje e desemprego mais elevado amanhã.
Com
uma eleição a vencer e um BC submisso não é surpreendente que a segunda
alternativa seja a preferida por qualquer político. O triste é saber que não
faltam economistas para justificá-la, apelando para a falácia que a política é
sempre o mais importante.
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Que argumento a madame
quer que eu defenda?
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(Publicado 22/Mai/2013)






