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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Juro que é real

Ponha-se na seguinte situação: você tem $ 1.000 e seu banco lhe oferece uma aplicação por um ano com taxa de 10%, prometendo depositar de volta na sua conta $ 1.100. Você toparia?

Não serei eu quem vai lhe dar a resposta, claro, mas noto que falta (pelo menos) uma informação crucial no problema acima, a saber, qual será a inflação neste ano durante o qual seu dinheiro estará “preso” na aplicação.

Digamos que seja 15%, isto é, as coisas que você poderia comprar por $ 1.000 hoje custarão $ 1.150 daqui a um ano. Neste caso seus $ 1.100 não poderão comprar o mesmo que $ 1.000 hoje, mas um pouco menos, ou seja, você perderia com esta aplicação. Faria mais sentido gastar o seus recursos agora, quando ainda pode comprar $ 1.000.

Não é difícil concluir, portanto, que seria vantajoso para você aplicar o dinheiro e abrir mão da possiblidade de gastá-lo agora apenas quando a inflação nos 12 meses seguintes fique abaixo de 10%.

Isso não quer dizer, óbvio, que necessariamente você aplicará estes recursos caso a inflação esperada para daqui um ano seja inferior a 10%; tal decisão depende de suas preferências pessoais, em particular se é mais impaciente (por estar, por exemplo, mais velho e com menos tempo para esperar), ou menos. Isto dito, deve ter ficado claro que a decisão de aplicar o dinheiro (em oposição a gastá-lo hoje) depende crucialmente da diferença entre o retorno de sua aplicação e a taxa de inflação futura, também conhecida como a taxa real de juros.

O problema é que, embora em geral conheçamos a taxa a que podemos aplicar nosso dinheiro, não sabemos a inflação nos próximos 12 (ou 3, ou 47) meses. No melhor dos casos podemos ter uma expectativa (um nome mais sofisticado para um “chute” educado) sobre como os preços se comportarão no horizonte relevante. Se estivermos certos sobre este chute, ou não, só saberemos ao final do período, mas, quando o fizermos, nossa decisão, tomada há 12 (ou 3, ou 47) meses, já faz parte do passado e é, portanto, irrevogável.

Dessa lengalenga toda, fica uma lição importante. A taxa real de juros que determina a decisão de gasto (portanto de atividade econômica) é a diferença entre a taxa de juros para um determinado prazo e a inflação esperada para aquele prazo. A inflação efetivamente observada é irrelevante, porque não pode alterar decisões já tomadas.

No caso do Brasil, em particular, a taxa real de juros assim definida (para o período de um ano) caiu de 8,6% no último trimestre de 2015 para 2,9% no mesmo período de 2017, fenômeno que se encontra na raiz da reversão do consumo.

Considerada a defasagem usual de dois trimestres, as vendas do varejo, que caíam quase 7% na comparação interanual, passaram a crescer pouco mais que 5% no final do ano passado, sem ainda refletir a queda observada na segunda metade de 2017. Houve (e ainda há) um impulso monetário considerável.


Não há, portanto, a necessidade de inventar ginásticas sobre estímulos “parafiscais” para entender porque, ao contrário do que diziam os keynesianos de quermesse, o consumo tenha crescido mesmo com queda do gasto público. Bastava lembrar que, em oposição aos países desenvolvidos, a taxa de juros no Brasil não era zero (oh!), mas isto requer mais honestidade do que este pessoal consegue aguentar.



(Publicado 14/Fev/2018)

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Tic, tac

Tivemos na semana passada a última reunião do Federal Reserve sob o comando de Janet Yellen, quando se decidiu pela manutenção da taxa básica de juros norte-americana entre 1,25-1,50% ao ano, sinalizando, porém, que a taxa subirá durante o ano, ainda que deva se manter abaixo do nível que, espera-se, prevalecerá no longo prazo.

Apesar da mensagem tranquilizadora, o mercado de títulos começa a mostrar preocupação: a taxa de juros para 10 anos, talvez a mais importante do sistema solar, subiu de algo como 2,5% aa para pouco mais de 2,8% aa do começo de janeiro para cá, o nível mais elevado desde o observado no final de 2014.

Não se trata, à primeira vista, de um grande movimento e, para falar a verdade, é ainda um nível historicamente baixo (para os mais curiosos, a série desde 1953 pode ser vista aqui: https://fred.stlouisfed.org/series/GS10), mas já foi suficiente para afetar não só o dólar no Brasil, mas as bolsas em todo o mundo, que sofreram forte queda.

O fato é que os dados mostram a economia americana crescendo na casa de 2-2,5% ao ano desde 2010, suficiente para reduzir de modo persistente a taxa de desemprego, que caiu de 10% ao final de 2009 para 4,1% nos últimos quatro meses, nível que parece representar o pleno emprego naquele país.

Apesar de outras medidas (mais amplas) de desemprego sugerirem a possibilidade de alguma folga “escondida” no mercado de trabalho americano, tal folga, se existir, também não é das maiores. Não por acaso, o salário médio por hora subiu quase 3% em janeiro deste ano, o ritmo mais forte desde junho de 2009. De forma consistente, as projeções no mercado de títulos para a inflação subiram para pouco mais de 2% ao ano no horizonte de 10 anos.

É bom deixar claro que não estamos falando de gigantesca aceleração inflacionária; no entanto, na comparação com os últimos anos, período em que salários não pressionaram a inflação, trata-se de uma dinâmica visivelmente distinta. O receio, portanto, do mercado de renda fixa, que se exprime na forma de juros mais elevados, parece refletir a percepção que a reação da política monetária terá que ser um tanto mais rápida, e mais vigorosa, do que as três elevações de 0,25% que se imaginava como o cenário mais provável para 2018.

Este risco se agrava na presença do estímulo proveniente do corte de impostos aprovado no final do ano passado, que deve elevar a demanda no curto prazo ainda mais rapidamente.

Até agora vivemos um momento muito particular da economia global: conjugamos crescimento forte e disseminado com liquidez abundante, que estimula a busca por taxas de retorno (e risco) mais elevadas. O primeiro ajuda o desempenho das nossas exportações, portanto nosso equilíbrio externo; já a segunda tem anestesiado investidores no que se relaciona à paralisia reformista mesmo em face de um sério desequilíbrio fiscal no país.

É bom ter em mente que esta janela não permanecerá aberta indefinidamente. Se, de fato, estamos observando os primeiros movimentos da transição para um mundo mais “normal”, com taxas de juros mais elevadas nos países ricos, reformas se tornam ainda mais urgentes.


Pelo andar da carruagem, contudo, o mundo político ainda não se deu conta do tamanho da encrenca. Quando perceber, poderá ser tarde demais.



(Publicado 7/Fev/2018)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Pelo fim da carniça

A condenação do ex-presidente Lula é, até agora, o cume de um processo doloroso, em que o país vê expostas as entranhas da corrupção numa dimensão que surpreende até os mais cínicos. Por onde se olhe não parece haver no mundo político convencional alternativa que não esteja ligada, de alguma forma, ao pervasivo fenômeno de exploração do setor público para fins de enriquecimento pessoal, ou financiamento de campanhas (a destinação dos recursos não alivia em nada a sujeira da sua origem).

Já tive oportunidade de explorar aqui as consequências nefastas da caça à renda (da qual a corrupção é a faceta mais tenebrosa) para o crescimento, tema que foi também trabalhado por Samuel Pessoa em sua última coluna com a competência habitual. Em suma, a caça à renda desvia a busca do lucro da inovação para a captura de recursos, levando ao menor crescimento e, portanto, piores condições de vida, processo detalhadamente explicado por Acemoglu e Robinson em “Por que as nações fracassam”, livro indispensável para entender o Brasil e seus dilemas.

Uma vez estabelecida a ligação entre a caça à renda e o baixo desempenho econômico, resta saber como poderíamos romper este elo e, tão importante quanto, se há alguma chance de fazê-lo.

Francamente, não vejo outro modo de acabar com isto que não passe por uma mudança radical da forma como organizamos nossa economia, em particular como o poder público intervém no domínio econômico. Está cada vez mais claro que as diversas dimensões da intervenção estatal na economia oferecem aos caçadores de renda, dentre eles os corruptos, um amplo manancial de oportunidades.

Vimos isto na Petrobras, vimos isto também na compra de medidas provisórias, na busca por desonerações tributárias, na escolha de “campeões nacionais” (JBS, por exemplo), e na enésima tentativa de ressuscitar a indústria naval, para citar, de memória, uns poucos exemplos.

A lista poderia se estender por bem mais do que os 3.200 caracteres aqui permitidos, mas apenas os casos aqui lembrados dão uma ideia, ainda que pálida, das imensas possibilidades de venda e compra de favores que a atual organização econômica do país permite.

Ocioso, no caso, discutir se a iniciativa parte dos compradores ou vendedores; o que importa é que onde há carniça, é para lá que voam os urubus. Assim, se queremos acabar com os urubus, a solução é óbvia: basta acabar com a carniça.

Metáforas de gosto duvidoso à parte (perdão, mas ando bem revoltado), não vejo saída que não passe por ampla privatização e redução drástica da intervenção estatal.

Vai acontecer? A resposta honesta é “não sei”, mas confesso aos raros leitores que não tenho muita esperança que qualquer proposta neste sentido acabe endossada pela população nas eleições. Reclama-se da corrupção, mas ninguém parece seriamente interessado em acabar com sua origem.

* * *


Márcio “Maria Antonieta” Holland ainda não entendeu que minha repugnância se limita às ideias econômicas das quais é veículo, seja na sua insistente divulgação, seja, de forma ainda mais grave, na sua aplicação sob a forma da Nova Matriz, que nos levou à pior recessão em quase 40 anos. Já sua figura pessoal é irrelevante; se me importasse com ela, provavelmente a desprezaria.



(Publicado 31/Jan/2018)

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Tolstói e as recessões

De 1980 para cá, período para o qual dispomos de dados razoavelmente consistentes para o PIB trimestral, o Brasil passou por oito recessões, segundo o belo trabalho de datação dos ciclos econômicos realizado pelo CODACE. Em 49 destes 151 trimestres estivemos em recessão, instabilidade que, se não é causa última do nosso fraco desempenho do ponto de vista de crescimento, certamente ajuda a entender fenômenos como a cautela empresarial no que diz respeito a decisões de investimento.

Parafraseando Tolstói, porém, a cada recessão somos infelizes de uma maneira. Das oito mapeadas pelo CODACE, cinco foram ou breves, ou pouco profundas, quando não breves e pouco profundas. Apenas três delas, portanto, tiveram a honra de serem, simultaneamente, longas e profundas: a associada à crise da dívida externa no início dos anos 80; a que conjugou o desastroso fim do governo Sarney à não menos desastrosa política econômica do governo Collor; e, finalmente, a herança da Nova Matriz do governo Dilma, da qual emergimos apenas no começo do ano passado.

Nesses três casos a queda do PIB ficou ao redor de 8,5%, e sua duração variou de 9 a 11 trimestres. Já no que tange as recessões menos graves, a queda do PIB variou de 1% a 6% (a recessão de 2008-09, mas que durou apenas dois trimestres), média de 3%, com duração entre dois e seis trimestres (em média pouco menos de um ano).

Não chega a ser surpreendente, portanto, a diferença entre os dois tipos de recessão no que se refere à recuperação da economia.

Definindo, de maneira um tanto arbitrária, a recuperação como o retorno aos níveis de produto observados imediatamente antes da recessão, observa-se que, no caso das recessões moderadas, o prazo fica entre 2 e 3 trimestres após o fim da recessão, ou seja, uma recuperação bastante rápida.

Contudo, nos dois exemplos de recessões longas e profundas, a retomada dos níveis de produção anteriores à crise demorou 7 e 10 trimestres. Em que pese o tamanho limitado da amostra, nossa experiência com as grandes recessões aponta para uma recuperação bem mais demorada, em parte pela própria distância maior em relação ao pico anterior, mas também por conta de uma velocidade de escape que parece ser bem menor do que no caso das recessões moderadas (com somente duas observações a média deve ser tratada com muita cautela).

O motivo por trás da lentidão aparente requer um tanto mais de estudo (a começar por dados mais detalhados de contas nacionais), embora haja candidatos óbvios ao papel de vilão da história (enorme capacidade ociosa, elevado endividamento de famílias e empresas, e crises políticas, entre outros).

Isto dito, porém, à luz da história dos últimos 38 anos, não parece razoável imaginar uma saída rápida da recessão de 2014-2016. Pelo contrário, os dados disponíveis até agora apontam para um padrão de recuperação muito semelhante ao das grandes recessões de 1981-83 e 1989-92, isto é, o retorno ao pico anterior à crise provavelmente apenas em 2019.


Neste sentido, apenas a famigerada desonestidade daqueles mesmos que juravam que a recessão não seria superada pode explicar a nova trincheira, que agora reclama da velocidade da recuperação, ignorando tanto a história como os estragos causados por sua própria política desastrosa.


Hmpf, tá, voltou a crescer, mas a recuperação é muito lenta...

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Fiz, mas não fui eu...

“Narrativa” virou uma palavra da moda. Há quem acredite que, mais que uma verdade, só é necessária uma narrativa que possa ser facilmente reproduzida pelos militantes de plantão, o que no contexto da disputa política é possivelmente verdade, mas certamente não quando estamos tentando entender o que de fato ocorreu.

Digo isto porque está em curso uma tentativa de criar uma narrativa (ou várias) que tire do governo anterior a responsabilidade pelo desastre que se abateu sobre a economia brasileira a partir do começo de 2014, do qual só começamos a sair no final de 2016 e começo de 2017.

Não falta quem tente atribuir a recessão bíblica que vivemos ao suposto “austericídio”, apesar do aumento persistente das despesas públicas (R$ 16,5 bilhões, já ajustados à inflação, de 2014 para cá, equivalentes a 1,7% do PIB) e da elevação do déficit público (limpo de “pedaladas” e afins) de 1,2% para 3,1% do PIB no mesmo período, ignorando acintosamente o papel dos erros da política econômica acumulados até o final de 2014.

Tentativa mais sutil de relativizar os erros do período é a de Marcio “Antonieta” Holland, em artigo recente na revista Conjuntura Econômica, em que ensaia um mea culpa, algo envergonhado, mas que esbarra numa série de problemas.

A começar porque quer limitar sua responsabilidade aos aspectos macroeconômicos do desastre, deixando para outros o fardo das intervenções desastradas no domínio econômico, que, como afirmei recentemente, conseguiram ser ainda piores que a política macro.

Quer também atribuir parcela do fracasso à corrupção, deixando convenientemente de lado que as oportunidades para a corrupção generalizada que se observou no período tenham se originado precisamente do intervencionismo patrocinado pela Nova Matriz. Ou alguém em sã consciência acredita que é mera coincidência a concentração de tais atos na Petrobras, exemplo maior da política intervencionista? E as acusações relativas à compra de medidas provisórias, justamente na área das desonerações tributárias, que o próprio Holland associa à Nova Matriz?

Por outro lado, mesmo quando se penitencia, ainda se gaba do crescimento do país entre 2011 e 2013 afirmando “algo parece que deu certo”. Já quando fala do período posterior, lamenta que o estouro do boom de commodities não seja considerado como fator responsável por “pelo menos um pouco da recessão”.

Lógica curiosa: quando o país cresce, é porque “algo deu certo”; já na recessão, invoca-se o preço das commodities.

A verdade é que países latino-americanos como Chile, Colômbia e Peru – que compartilhavam com o Brasil a dependência de preços de commodities (e são muito mais abertos ao comércio internacional, portanto mais sensíveis a esta variável), mas que mantiveram políticas econômicas corretas – sofreram uma desaceleração de seu crescimento da casa de 1,5% a 2,5% entre 2011-14 e 2015-16; já o Brasil passa por uma queda de 6 pontos percentuais (de +2,3% aa para -3,7% aa) no mesmo período e vê seu PIB encolher. Algo parece que não deu certo.

Ao fim da história, temos mais um exercício de equilibrismo do que o reconhecimento do estrago que suas políticas causaram ao país. Ao invés de um longo artigo, Holland poderia simplesmente ter dito: fiz a Nova Matriz, mas não fui eu...

Forjei a Nova Matriz, mas não fui eu


(Publicado 17/Jan/2018) 

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Sempre à espera de D. Sebastião

Foi uma semana tenebrosa para os rumos da política fiscal no país. Por um lado, balões de ensaio acerca da revogação (ou “flexibilização”) da “regra de ouro”, dispositivo constitucional que limita o endividamento do governo às suas “despesas de capital”. Por outro, a sanção presidencial à lei que permite o uso de até R$ 15 bilhões do FGTS para empréstimo à Caixa Econômica Federal (CEF) na forma de um bônus perpétuo.

Em ambos os casos, sinalização não apenas das dificuldades relativas à política fiscal, mas principalmente da incapacidade de lidar com elas.

Tomemos o caso da “regra de ouro”. Ela basicamente permite que o governo emita dívida somente em dois casos: para pagar a dívida que está vencendo (a chamada “rolagem”, que, por definição apenas mantem o valor da dívida) e para financiar o investimento público (neste caso, aumentando o valor da dívida).

Se levada a ferro e fogo, portanto, implicaria limitar o déficit primário ao investimento. Ocorre, porém, que estas grandezas têm apresentado comportamento divergente: o resultado primário, superavitário até 2013, se tornou cada vez mais negativo desde então, acumulando, no caso do governo federal, déficit equivalente a 2,5% do PIB nos 12 meses até novembro de 2017.

Já o investimento, que atingiu seu pico em setembro de 2014 (1,4% do PIB), vem em queda livre desde então, para 0,9% do PIB em 2015 e 0,8% do PIB nos 12 meses terminados em novembro. Apenas a antecipação do pagamento do BNDES, R$ 50 bilhões, ocorrida no ano passado permitiu que o novo endividamento não superasse o investimento e quebrasse a “regra de ouro”. No entanto, este tipo de operação permite contornar o problema por algum tempo, mas não resolve o desequilíbrio de fundo.

Da mesma forma, flexibilizar a regra de ouro, mesmo introduzindo medidas obrigatórias de ajuste em caso de violação, pode evitar punições aos responsáveis pela gestão fiscal, mas de forma alguma oferece uma solução para um país em que o gasto obrigatório supera a arrecadação e no qual o mundo político não consegue levar adiante reformas que nos levem a reverter o problema do gasto crescente.

Já no caso da CEF, seu uso irresponsável, patrocinado pelos pais (agora ausentes) da Nova Matriz Econômica, levou o banco a uma situação delicada do ponto de vista da relação entre seus ativos (empréstimos) e seu patrimônio (capital), que hoje já se encontra muito próximo dos limites estabelecidos na atual versão do Acordo de Basileia, que deverão se tornar ainda mais duros com a adoção de sua nova versão, conhecida como Basileia III.

Na prática, isto requer a injeção de capital novo, mas, dada a penúria do governo federal, seu único acionista, a alternativa foi a autorização para que o FGTS adquirisse uma dívida perpétua da CEF que, para fins regulatórios, equivale a capital. Contabilmente a aquisição desta dívida não conta como gasto do governo (o FGTS não faz parte da administração pública), também contornando o problema, ao invés de enfrentá-lo.

Não é a primeira vez que o governo tem que colocar dinheiro na CEF; com atitudes como esta, também não será a última.


Continuamos, pois, a empurrar nossos problemas com a barriga, na esperança que algum D. Sebastião venha a resolvê-los, porque nós não queremos fazê-lo.



(Publicado 10/Jan/2018)

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A queda do desemprego e a reforma trabalhista

Segundo dados do Ministério do Trabalho referentes à criação e destruição de empregos formais (CAGED), houve em novembro destruição líquida de 12,3 mil postos, dado que foi rapidamente tomado por uns como prova do efeito negativo da reforma trabalhista que entrou em vigor naquele mês. Oportunismo misturado com ignorância, com preponderância do primeiro fator.

A começar porque deixa de lado o comportamento sazonal das séries, isto é, das flutuações dentro do ano que refletem particularidades de cada período, como, por exemplo, o aumento das vendas no Natal, ou a queda da produção industrial durante o Carnaval. Uma vez ajustada a série a seu padrão sazonal, estima-se criação líquida de algo como 17 mil postos em novembro, um pouco mais do que o registrado em outubro (13 mil postos), e o segundo valor positivo neste critério depois de 35 meses negativos.

Além disso, se fôssemos julgar os efeitos da reforma trabalhista pelos resultados de novembro apenas, teríamos também que reconhecer a nova queda da taxa de desemprego registrada no mês, de 12,2% para 12,0% de acordo com os dados do IBGE (ou de 12,6% para 12,5% em termos dessazonalizados). Seria a reforma um sucesso?

Obviamente, não se trata de uma coisa, nem de outra. Não há como avaliar, ao menos não honestamente, o efeito da reforma trabalhista com base na observação de um único mês. Não apenas serão necessárias muitas outras observações, como também a análise precisará ir além do “subiu” ou “desceu”, porque o mercado de trabalho deve continuar a melhorar este ano, com base na mesma dinâmica que vigorou em boa parte de 2017.

O desemprego, por exemplo, atingiu seu pico em março de 2017, quando o dado original do IBGE apontou para uma taxa de 13,7% naquele trimestre (13,0% com ajuste sazonal) e vem em queda lenta, porém consistente, desde então. Da mesma forma, o emprego total – que caíra pouco abaixo de 89,5 milhões dessazonalizado – subiu para 91,5 milhões também sazonalmente ajustado. Assim, o emprego, que havia se reduzido a 53,5% da população em idade ativa, agora corresponde a pouco mais de 54% dela, longe de seus melhores momentos, mas em clara evolução.

Posto de outra forma, já há uma recuperação em curso e, com a aceleração do crescimento agora em 2018, não é difícil concluir que a geração de emprego será ainda mais vigorosa (e de melhor qualidade do que em 2017) e que o desemprego cairá, ainda que se mantenha na casa de dois dígitos.

Será isso motivo para saudar a reforma trabalhista? Se fôssemos usar os parâmetros dos críticos de hoje, a resposta seria afirmativa. Se, porém, usarmos critérios honestos, teremos que comparar o desempenho de 2018 àquele que vigoraria na ausência da reforma, tarefa bem mais complicada, ainda que não impossível.

Isso dito, não há mais dúvidas sobre a recuperação da economia. Os que afirmavam que esta seria impossível sem o estímulo do gasto público tiveram que mudar a “narrativa”, que agora foca na “lentidão da retomada”, como se esta não fosse consequência do excesso de endividamento público causado por suas políticas irresponsáveis.


De qualquer forma, quando aparecer novo número negativo do CAGED de dezembro, como ocorreu em todos os dezembros dos últimos 24 anos, não caiam no conto dos oportunistas.



(Publicado 3/Jan/2018)

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Previdência: quatro soluções e um funeral

Há quatro soluções simples para a questão previdenciária no Brasil, e – como toda solução simples para um problema complexo – estão inapelavelmente erradas.

Começo pela sugestão de transição do atual regime de repartição (em que a geração ativa transfere compulsoriamente recursos para a geração inativa sob a forma de contribuições) para um regime de capitalização (em que a geração ativa poupa recursos para usá-los durante sua própria aposentadoria).

Poderíamos, talvez, ter feito esta transição tempos atrás, quando a geração ativa era muito maior do que a inativa, mas este bonde já passou. Considerando apenas o INSS, o pagamento de benefícios previdenciários chega a 8,5% do PIB, enquanto as contribuições atingem 5,7% do PIB. Caso abríssemos mão das contribuições, mesmo que parcialmente, a falta de recursos para o pagamento dos benefícios se tornaria ainda maior, acelerando o endividamento público, precisamente o oposto do que precisamos.

Outra solução simples e errada é a ideia que a cobrança da dívida ativa (o número mágico é R$ 500 bilhões) resolveria o déficit do sistema. Mesmo se deixarmos de lado que grande parte desta dívida se refere a empresas falidas (e cobrança de juros sobre elas), noto que os benefícios previdenciários do INSS se encontram na casa de R$ 550 bilhões/ano, ou seja, no improvável cenário de recuperação completa desse valor, ele não cobriria um ano do gasto e menos de 3 anos do déficit do INSS.

Na mesma linha, ainda se insiste na questão da aposentadoria dos políticos. Em primeiro lugar, há 20 anos que políticos não mais se aposentam com apenas 8 anos de mandato e a partir de 50 anos (ainda bem!), mas só depois de 35 anos de contribuição com idade mínima de 60 anos. Em segundo lugar, mesmo que parássemos de pagar os que se aposentaram sob regras diferentes, o valor é ínfimo perto do gasto previdenciário no país. Em terceiro, a proposta de reforma unifica as regras para todos, inclusive políticos.

A quarta sugestão se refere à Desvinculação dos Recursos da União, a chamada DRU, que, segundo alguns, se extinta, eliminaria o déficit da Previdência. À parte a DRU não incidir sobre as contribuições previdenciárias, não faz a menor diferença direcionarmos mais recursos à previdência, uma vez que, com DRU ou sem DRU, todos os aposentados sob a responsabilidade do governo federal ainda recebem em dia seus proventos (já no caso dos estados, nem sempre é assim), pois o dinheiro de outros tributos garante, por ora, tais pagamentos.

Por outro lado, revogar a DRU em nada ajuda a conter o crescimento dos gastos, resultantes da combinação de demografia e privilégios.

Já o funeral é o da lógica.

Em coluna publicada na sexta-feira, nelson barbosa aponta Portugal como um país que fez o ajuste fiscal sem “austericídio”, presumivelmente em oposição ao que se tenta fazer no Brasil. Como de hábito, faltou a barbosa olhar os números: entre 2010 e 2016 o déficit público em Portugal caiu de 11,2% do PIB para 2,0% do PIB, com corte de despesas no período pouco inferior a 7% do PIB.


No Brasil, em contraste, se propõe uma redução de 2,0-3,0% do PIB do déficit primário no mesmo horizonte, mas aqui, por alguma razão, este ajuste muito mais gradual é considerado “austericídio”. Descanse em paz.

Logic was my North, my South…


(Publicado 27/Dez/2017)

Barbooosa e a falta de memória

nelson barbosa segue em retirada, tentando não ser tão rápido que pareça covardia, nem tão devagar que soe como provocação.

Agora já reconhece (depois de apenas 3 advertências!) que programas de ajuste fiscal ancorados em corte de gastos têm efeitos contracionistas modestos e de curta duração, ao contrário de ajustes baseados em aumentos de impostos. E aceita também a necessidade de elevar o resultado primário em R$ 300 bilhões nos próximos anos, fruto dos desarranjos de políticas econômicas que patrocinou enquanto ocupava altos cargos na equipe da presidente Dilma Rousseff.

Como, porém, não consegue deixar de ser barbosa, ainda insiste em aumentos de impostos, ignorando a recuperação da economia que, por si só, deve elevar em  R$ 100 bilhões a arrecadação no ano que vem.

Admite até a conveniência da “redução de crescimento dos gastos”, progresso para quem defendeu o oposto disto no seguinte artigo: https://nodocuments.files.wordpress.com/2010/03/barbosa-nelson-souza-jose-antonio-pereira-de-a-inflexao-do-governo-lula-politica-economica-crescimento-e-distribuicao-de-renda.pdf. Professa, afinal, a necessidade de reforma da previdência, bem como adiamento do reajuste de servidores, o mesmo acordado quando era ministro.

Tudo em teoria, claro, porque na hora do “vamos ver”, reclama da contenção de gastos e não apoia a reforma da previdência agora em pauta. Da mesma forma, em janeiro de 2016 defendia um teto de gastos, mas em setembro atacava medida similar. A diferença? No primeiro caso era vidraça; no outro, estilingue.

Não tenho a menor dúvida sobre a coerência de barbosa: é uma coerência de fins, nunca de ideias, motivo pelo qual honestidade intelectual não é sua característica mais marcante.

Ele se diz contrário ao corte do investimento público (mesmo se vangloriando do “maior contingenciamento de gastos discricionários da história”), mas não assume a responsabilidade pelo aumento da rigidez orçamentária em seu longo período em cargos-chave do ministério da Fazenda, fenômeno que limitou ao investimento federal o raio de ação de qualquer governo empenhado em reduzir a despesa.

Caso, ao invés de defender a “inflexão de política econômica” no final do governo Lula, tivesse proposto medidas para conter gastos obrigatórios, talvez não houvesse a necessidade de cortar investimentos, mas esta parte da história barbosa mantém cuidadosamente escondida.

E, por fim, barbosa ainda desconsidera que os movimentos no sentido da criação de um novo regime fiscal abriram espaço para uma queda sem precedentes da taxa real de juros, desta vez com a redução da inflação.

É esse fenômeno que se encontra na raiz da recuperação da demanda doméstica, a mesma que ele garantia que não iria ocorrer (mas agora, claro, sequer toca no assunto).

A verdade é que economistas da linha de barbosa tiveram sua chance e nos conduziram à pior recessão da história recente do país, o que barbosa tenta a todo custo ocultar.


Há, porém, quem lembre; assim como há os que jamais os deixarão esquecer.


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Pirâmides

Boa parte das dificuldades para explicar a necessidade de reforma da Previdência vem do desconhecimento dos rudimentos do regime previdenciário. Em retrospecto, deveria ter escrito isto antes, mas, já que a reforma não irá ocorrer no atual mandato, podemos deixar pronto para recomeçar a discussão mais à frente. Ainda é possível adiar o encontro com a realidade; fugir dele é outra história.

Imagine um mundo em que há sempre duas gerações: uma jovem, trabalhando; outra mais velha, já aposentada. Há basicamente duas formas de garantir que a geração aposentada possa se manter durante a velhice.

Uma alternativa requer que a geração ativa poupe para seus anos futuros, por exemplo, criando fundos de pensão que investirão os recursos guardados e, quando da aposentadoria, pagarão aos investidores certa renda, que depende da rentabilidade de suas aplicações, bem como de um conjunto de outros parâmetros, como expectativa de vida, idade de aposentadoria, etc. Este regime previdenciário é denominado “capitalização” e são poucos países que o adotam como elemento central para sua previdência.

A outra é um regime de repartição. Sob esta organização, a geração ativa transfere uma parcela de sua renda para a geração inativa, em troca de ser tratada da mesma forma quando chegar sua vez de se aposentar e uma nova geração tomar seu lugar no mercado de trabalho.

O leitor mais atento há de notar alguma semelhança com o esquema de “pirâmides” financeiras, exceto por um elemento crucial: a população de um país ao longo do tempo é, para efeitos práticos, infinita. Sempre haverá uma geração substituindo a outra e o esquema funciona enquanto novas gerações vierem à vida, sob algumas condições.

Caso a proporção entre inativos e ativos fosse sempre a mesma, não seria difícil calibrar o regime para que funcionasse indefinidamente. Ocorre que não é este o caso, nem no Brasil, nem no mundo.

Por um lado as pessoas têm vivido mais. No Brasil a expectativa de vida ao alcançar a idade de aposentadoria tem subido continuamente (em 1980 a expectativa de sobrevida aos 60 anos chegava a 16 anos; hoje atinge 22), o que implica aumento da população aposentada. Por outro lado, a fecundidade tem caído: em 1980 cada mulher dava à luz, em média, 4 filhos; em 2017 esta média já havia recuado para 1,8 nascimentos/mulher. Posto de outra forma, a geração ativa também se tornou menor.

Em consequência de ambos os desenvolvimentos, a relação entre idosos e jovens (também chamada “razão de dependência”) vem caindo subindo e cairá subirá ainda mais no futuro, independentemente do que fizermos, pois o dado demográfico já foi lançado. [Obrigado pela correção, https://twitter.com/RicardoRangel_)

Assim, em 1980 a razão de dependência apontava uma população acima de 60 anos equivalente a 11% da população em idade ativa (de 15 a 59 anos); já em 2020 se espera que esta proporção se eleve para quase 21%, chegando a 52% em 2050.

A previdência no Brasil já é desequilibrada hoje, não só pela demografia, mas também pelos privilégios de categorias que se aposentam em condições muito mais favoráveis, sem contrapartida de contribuições equivalentes na ativa.


Caso os parâmetros do regime não sejam corrigidos, o que parecia ser uma pirâmide se tornará um monumento real aos faraós que hoje lutam – e com sucesso! – para manter suas regalias.

Pirâmides



(Publicado 20/Dez/2017)