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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Reservatórios 25/jan/2015


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Triconomics 22/Jan/2015

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Juras de amor e convergência

Parece incrível, mas houve quem tecesse loas ao legado de Guido Mantega no ministério da Fazenda, em especial à inflação de 6,4% no ano passado, muito embora esta tenha superado a meta em quase dois pontos percentuais, no limite máximo permitido, e mesmo assim à custa de controles de preços que desarrumaram ainda mais a economia.

Se, porém, o elogio é pernicioso, pior é a tentativa fajuta de vender a ideia que a inflação elevada é um “problema estrutural”, sina da qual o país não pode escapar.

Segundo esta historinha, no governo Dilma a inflação ficou em 6,2% ao ano, apenas um pouco acima do observado no governo Lula, quando a média atingiu 5,8% ao ano. Assim, de alguma forma, a inflação brasileira “tenderia” a um patamar ao redor de 6% e o melhor seria se acostumar com esta ideia.

Não é preciso muito para localizar os furos do argumento. A começar pelo uso da média, conceito que, se mal utilizado, serve para revelar apenas o que se deseja, ocultando o fundamental. De fato, no governo Lula a inflação média ficou em 5,8% ao ano, mas isto esconde que no segundo mandato caiu para 5,1% ao ano, bem inferior aos 6,4% ao ano observados entre 2003 e 2006.

Aliás, mesmo este número é exagerado, pois reflete em grande medida os impactos da crise política de 2002, visíveis na elevada inflação do primeiro trimestre de 2003 (5,1%). Entre abril de 2003 e dezembro de 2006 a inflação registrou 5,4% ao ano.

Fica claro, portanto, que a inflação veio em queda durante o governo Lula, ainda que com oscilações ao longo do processo. É no governo Dilma que a trajetória se inverte, apesar do uso generalizado do controle de preços.

Mais importante, porém, é o desvio da inflação com relação à meta, lembrando que a meta foi mais alta no período 2003-2006 do que nos anos subsequentes, quando estacionou em 4,5%. Durante os oito anos do governo Lula o desvio médio foi 0,7% por ano, praticamente igual nos dois mandatos. Já no período 2011-14 atingiu 1,7% por ano, um ponto percentual a mais do que o observado anteriormente.

Resumindo, o governo Dilma foi marcado por inflação mais alta e ainda mais distante da meta. Nenhum destes processos é consistente com a noção de uma “inflação estrutural”, contra a qual pouco se pode fazer. Pelo contrário, se a inflação subiu, isto significa necessariamente que ela já foi mais baixa e que, portanto, não há nenhum obstáculo intransponível para a obtenção de resultados melhores do que os registrados no período mais recente.

Faltou, é claro, uma atuação mais destemida do BC. Desde muito cedo o Copom deixou de perseguir a meta, fato revelado pela redução da taxa de juros mesmo em face de inflação corrente e esperada crescentes, na contramão do indicado por qualquer compêndio de política monetária.

Agora, mais uma vez, o BC promete trazer a inflação de volta à meta em 2016, devoto do “fiado só amanhã”. No entanto, ao explicar a alta inflacionária em 2014 seu presidente se apressa ao negar qualquer responsabilidade, atribuindo o problema ao encarecimento do dólar e ao aumento dos preços administrados.

Deixa convenientemente de lado o represamento a que estes preços foram sujeitos em anos anteriores, assim como a pesada intervenção no mercado de câmbio. Satisfeito com isto, o BC não agiu para reduzir a inflação.

Tivesse o BC feito o que era necessário, os impactos do dólar e dos preços administrados (que devem se repetir este ano) implicariam riscos bem menores quanto ao possível “estouro” do limite superior da meta.

O primeiro passo para recuperar a credibilidade do BC seria o reconhecimento da sua responsabilidade no processo, assim como o bom diagnóstico é base para a cura.


O histórico de inflação acima da meta já não ajuda, mas, sem o mea culpa, fica ainda mais difícil acreditar em nova jura de convergência, principalmente em face dos números que nos aguardam no começo de 2015.

Agora à vera


(Publicado 14/Jan/2015)

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Triconomics 20/Jan/2015

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Triconomics 15/Jan/2015

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Tirocínio mínimo

Como sempre, a presidente não desperdiçou a chance de perder uma oportunidade. Ao publicamente advertir seu recém-empossado ministro do Planejamento acerca das mudanças nas regras que determinam o reajuste anual do salário mínimo (SM) ela conseguiu a proeza de cometer erros econômicos e políticos absolutamente primários.

De acordo com a norma vigente o SM é reajustado pela inflação do ano anterior (medida pelo INPC, o “irmão pobre” do índice oficial de inflação, o IPCA), combinada ao crescimento do PIB de dois anos atrás.

Por exemplo, o INPC de 2014 deve ter atingido em torno de 6,2%, enquanto o crescimento do PIB de 2013 ficou em 2,5%. Assim, o reajuste do SM foi acertado (provisoriamente, pois ainda precisamos saber o INPC de dezembro) em 8,8%, o que o trouxe de R$ 724,00 para R$ 788,00 por mês.

A regra atual implica, portanto, aumento do SM persistentemente acima da inflação (o crescimento do PIB pode ser negativo, mas, na prática, quando isto ocorre o reajuste fica igual à inflação), o que, aliás, se observa desde a estabilização da economia em 1994. No governo FHC o SM aumentou 4% ao ano acima da inflação, enquanto nos governos Lula e Dilma este ganho atingiu 4,8% ao ano. De 1994 para cá, portanto, houve aumento real superior a 140%.

O problema, no caso, é que boa parte do gasto federal está de alguma forma ligado à evolução do SM, em particular as despesas previdenciárias. Estima-se que a cada 10% de aumento do SM os gastos subam cerca de R$ 25 bilhões/ano (0,5% do PIB), ou seja, em 2015 a elevação já definida adiciona algo como R$ 22 bilhões (0,4% do PIB) às despesas federais.

À luz disto, qualquer economista que tenha estudado as contas públicas sabe que a política de aumento persistente do SM acima da inflação é insustentável. O atual ministro do Planejamento – que aparentava desconhecer o problema enquanto esteve na equipe de Guido Mantega – parece ter finalmente se convencido de sua relevância. Daí seu anúncio, rapidamente desmentido, sobre as alterações das regras atuais.

No entanto, a bronca presidencial pública parece não ter considerado uma série de questões.

A mais óbvia diz respeito à autonomia da equipe econômica. Como já tive oportunidade de explorar neste espaço, a única forma de a presidente persuadir o público que não pretende manter a desastrosa “nova matriz macroeconômica” requer uma equipe que não se sujeite ao papel de marionetes, como foi o caso do primeiro mandato. Há dúvidas consideráveis a este respeito (eu, por exemplo, sigo longe de convencido) e o episódio da bronca apenas adiciona ao clima de incerteza. Isto implica custos mais elevados em termos de produto para ajustar a economia.

Não bastasse isto, as regras vigentes já resultariam numa elevação muito modesta do SM em 2016 e 2017, pois o crescimento do PIB em 2014 e 2015 deve ser muito baixo, conforme expresso na versão mais recente da pesquisa Focus do BC, que sugere expansão de 0,15% e 0,50% respectivamente.

Posto de outra forma, a presidente diminuiu de graça a estatura de seu ministro, pagando um custo elevado em termos de credibilidade em troca da sugestão de manter uma política que implicaria ganho real do SM inferior a 1% nos próximos dois anos.

É compreensível que a presidente esteja na defensiva após ter quebrado as promessas de não mexer nos direitos trabalhistas (“nem que a vaca tussa”), mas isto não é desculpa para ter incorrido em erro tão elementar.


Neste aspecto é revelador que a presidente não pareça ter refletido sobre a melhor resposta a um problema que, no final das contas, seria trivial em face das circunstâncias esperadas. Ela ainda não caiu em si sobre a enormidade da tarefa que enfrenta e segue tentada a manter a atitude centralizadora, deixando pouco espaço para sua nova equipe formular o ajuste necessário. Um péssimo sinal sobre o que nos aguarda à frente.

Ops!

(Publicado 7/Jan/2015)

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Triconomics 13/Jan/2015

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

João Sicsú bate seu próprio recorde de desonestidade intelectual!

Que João Sicsú é intelectualmente desonesto não mais se discute. Ainda assim, porém, há momentos em que ele consegue nos surpreender. Leiam, se tiverem estômago, mas posso sintetizar a mensagem para vocês.

Há 3 fases de política econômica. Quando o país cresceu, foi porque seguiu nossa política. Quando não cresceu, foi porque seguiu a política neoliberal.

Sério.

Vejam só: “A primeira fase obteve resultados pífios ou medíocres. Tudo muito semelhante ao segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso.” Só não contou que a na tal “primeira fase” o crescimento do PIB atingiu 3,5% ao ano, mesmo com o 2003 complicado pelo medo do que gente como Sicsú poderia fazer.

Entre 2004 e 2006 o país cresceu 4,2% ao ano. A inflação, 9,3% em 2003, caiu para 3,1% em 2006. A conta corrente foi positiva em todos aqueles anos. Como se vê, um resultado pífio.

Mas o pico da desonestidade (o que não é qualquer coisa quando se trata de Sicsú) é o seguinte:

O ano de 2011 é um marco. Tem início a terceira fase. O debate morre, na mídia e no governo. Grandes quadros progressistas ou de esquerda, aos poucos, saem de cena. Os movimentos sociais estão adormecidos. As políticas de Palocci e Meirelles voltam com força total: juros subiram, superávit primário foi elevado, houve contenção do crédito e o câmbio flutuou livremente para baixo. Os resultados se tornam pífios a partir de então.

Fantástico! No mundo mágico de Sicsú a tal “nova matriz macroeconômica” nunca existiu, o BC não reduziu a Selic para 7,25%, o superávit primário não desapareceu e o estoque de crédito do BNDES não cresceu 15% ao ano. A política econômica dos últimos 4 anos não tem nada a ver com as recomendações campineiras. Além de desonesto, não assume responsabilidades.

Apesar de ser um desserviço à higiene, o artigo original e o link seguem abaixo. Aí poderão ver se exagerei...

Adendo (13/Jan/2015)

Um amigo, com mais estômago que eu, desencavou a seguinte pérola:

"A economia começou a reagir, de fato, no início de 2013, quando começaram a ser dissolvidos os efeitos provocados pela política contracionista de 2011. No primeiro trimestre do ano, o investimento cresceu mais que a economia – deu sinais que a forma do crescimento poderia se assemelhar à Era Lula. O resultado do 2º tri já foi bem melhor que o do primeiro. O PIB cresceu 1,5% em relação ao trimestre anterior e 3,3% em relação ao mesmo período do ano passado. E o investimento? Cresceu quase três vezes o crescimento da economia – tal proporção foi exatamente o que caracterizou a fase de crescimento de 2005 a 2010.
Outro quesito importante da qualidade do PIB é o crescimento da indústria. No 2º trimestre, houve crescimento de 1,7% da indústria de transformação em relação ao trimestre anterior. A construção civil foi o destaque, cresceu 3,8% em relação ao trimestre passado. Sempre que a indústria cresce a trajetória do PIB se mostra mais consistente.
Sonho para uns e pesadelo para outros: a economia está com inflação moderada e a trajetória de crescimento se mostra consistente, embora ainda modesta"

O autor? Sicsú, claro, em 30/Ago/2013. Ah, sim, e como lembrado também por este amigo, o artigo abaixo contradiz o Manifesto pró-reeleição de Dilma, assinado por quem? Preciso responder?


Não passaram apenas 12 semanas. Não passaram apenas 12 meses. São 12 anos de governos do PT e de seus aliados. No imaginário do povo brasileiro, que tem pressa, uma dúzia de anos é muito tempo. Não é o início de um projeto, mas sua consolidação. Esses 12 anos não foram um período homogêneo em termos de resultados, de ideias e de políticas adotadas. Houve ziguezague.

Um balanço minucioso do período 2003-2014 ainda precisa ser elaborado. Mas, grosso modo, houve três fases. Na primeira, as ideias fervilhavam. Era um governo que acertava e errava. Aliás, errava mais do que acertava, mas havia muito debate. Era um governo vivo de ideias. Havia debate nas universidades, na mídia, nos movimentos sociais, na internet e no interior do próprio governo.

A equipe econômica, constituída em 2003, por Antônio Palocci e Henrique Meirelles, provocou um desconforto histórico. O PT, um partido que foi construído nas lutas por melhores salários e mais empregos, nos genuínos movimentos sociais e com forte influência de uma esquerda que pregava justiça social, nomeou uma equipe econômica que defendia ideias opostas à sua história.

Em nome da governabilidade e de muitos outros argumentos chamados de técnicos tais como “não se pode dar cavalo de pau em transatlântico”, fez-se uma opção definitiva de continuidade do modelo econômico do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (1999-2002).

Estranhada por muitos, essa tinha sido uma opção definitiva, sem volta. Foi uma opção estranha para economistas desenvolvimentistas e de esquerda, mas foi uma opção confortável e comemorada pelos petistas pragmáticos. Havia um argumento simplório que confortava a militância petista: “deixa a política econômica com eles e a política social com a gente”. Erro crasso: políticas sociais necessitam de financiamento cuja fonte está no modelo econômico.

A primeira fase obteve resultados pífios ou medíocres. Tudo muito semelhante ao segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Basta comparar os números e perceber que as melhoras foram imperceptíveis. E assim a história seguiria o seu rumo... sem solavancos e com uma oposição enfraquecida já que o governo havia roubado alguns de seus quadros e todas as suas ideias econômicas.

Faltou combinar com a vida real... resultados irrelevantes, ataques bem sucedidos da grande mídia tendo como mote a corrupção no interior do governo, queda do ministro Palocci provocada por denúncias de um caseiro, a crise americana/mundial de 2007-2009 e a intensificação do debate de ideias, fizeram o PT se reencontrar com a sua história e seus sonhos dos anos 1980 e 90.

Teve início a segunda fase. A oposição foi saindo do Ministério da Fazenda e voltando para a oposição. Saiu de outros órgãos do governo também. Meirelles continuou à frente do Banco Central, mas a sua diretoria foi mudando: quem era do mercado financeiro voltou aos seus empregos de origem. O modelo do período FHC foi modificado sem “cavalo de pau”. Houve algum tipo de controle do movimento de capitais internacionais especulativos. Os bancos públicos honraram o rótulo que possuem. A Petrobras fazia descobertas inusitadas. O governo elevou o seu patamar de investimentos, uma política fiscal anticíclica foi organizada e houve início de uma restruturação que objetivava justiça tributária. Importantes programas sociais foram lançados ou aprofundados. Os resultados obtidos foram extraordinários. José Alencar, o vice-presidente da República, e o presidente Lula se consolidaram.

O ano de 2011 é um marco. Tem início a terceira fase. O debate morre, na mídia e no governo. Grandes quadros progressistas ou de esquerda, aos poucos, saem de cena. Os movimentos sociais estão adormecidos. As políticas de Palocci e Meirelles voltam com força total: juros subiram, superávit primário foi elevado, houve contenção do crédito e o câmbio flutuou livremente para baixo. Os resultados se tornam pífios a partir de então. O único bom resultado que é o desemprego deixa de ser explicado pelo vigor econômico e é mantido graças a fatores demográficos e políticas sociais específicas.

Após 12 anos, representantes diretos dos banqueiros assumem a direção do Ministério da Fazenda e dão o tom da política econômica. Os juros sobem novamente. Metas de superávit primário são fixadas independentemente dos ciclos. Representantes de latifundiários e do agronegócio ganham espaço. E, em nome da moralização, direitos sociais estão ameaçados.

A guinada de 2011, que se torna mais nítida em 2015, parece ter sido mais uma jogada política pragmática de consolidação do modelo iniciado em 2003 que foi interrompido em 2006-7. A opção de 2003 retornou apenas com suas políticas em 2011. Em 2015, retorna com as políticas e com representantes legítimos da oposição ligados ao sistema financeiro. A opção feita na Carta aos Brasileiros de 2002-3 parece estar se consolidando. O pragmatismo político de governabilidade do PT parece ter vencido os sonhos e a história do PT.


Com muitas dúvidas e certa desesperança nesse governo encerro essa breve reflexão.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Feliz 2016

2014, o ano que acabou antes de começar, se encaminha para um fim melancólico, embora previsível. Ainda assim, deixará saudades. O consenso de mercado, conforme capturado pela pesquisa Focus desta semana, aponta para crescimento de 0,55% no ano que vem, enquanto a inflação chegaria a 6,53%, em larga medida por conta do reajuste dos assim chamados “preços administrados”, na prática reprimidos muito além do razoável nos últimos anos.

Já eu considero otimista a projeção de um crescimento em 2015 superior ao de 2014.

Em entrevista recente o futuro ministro da Fazenda aponta para aperto fiscal de R$ 56 bilhões no ano que vem (desconfio também que mais será necessário, mas fiquemos com seu número), pouco mais que 1% do PIB. Como se imagina, a maior parte deste ajuste deverá vir sob a forma de impostos mais elevados.

Já o BC, depois de enfiar os pés pelas mãos ao prometer “parcimônia” nas próximas reuniões do Copom, esqueceu o que havia escrito 12 dias antes e agora jura que irá “fazer o que for necessário para que no próximo ano a inflação entre em longo período de declínio que a levará à meta de 4,5% em 2016”. Obviamente, depois de tantas idas e vindas, não há quem ponha a mão no fogo pela palavra do BC (eu certamente não), mas, se o compromisso for à vera, implica taxas de juros ainda mais altas em 2015, adicionando pressões para baixo sobre a demanda doméstica e, portanto, o nível de atividade.

Por fim, sem querer transformar a coluna numa longa lista de fatores negativos, os aumentos de preços administrados acima mencionados, principalmente energia e transportes, devem reduzir a renda das famílias, eliminando um dos poucos elementos que têm sustentando o consumo nos últimos trimestres.

Em resumo, não há o que indique crescimento mais forte no ano que se inicia. O país conseguirá, portanto, a proeza de exibir, simultaneamente, inflação elevada e crescimento (ainda mais) ridículo, um acontecimento raro.

Isto dito, por mais que se atribua o provável desempenho sofrível da economia em 2015 às políticas acima descritas, a verdade é que não foram estas (sequer adotadas, aliás) que nos colocaram na atual situação.

O crescimento baixo, inflação elevada e déficits externos crescentes são o legado de mais um experimento heterodoxo no país, muito embora uns e outros ainda se recusem a admitir o óbvio fracasso. Como sempre ocorre nestes casos, cabe às políticas tradicionais o papel de nos tirar da encrenca e não será desta vez que quebraremos este triste padrão.

A desaceleração do ano que vem faz parte do custo da farra dos últimos 5 anos. Face a uma trajetória crescente da dívida do governo, que saltou de 53% para 63% do PIB de 2010 para cá, inflação na casa de 6,5%, um setor elétrico em total desarranjo (apesar do suposto profundo conhecimento da presidente sobre o setor), entre outras distorções, não há alternativa séria que não requeira uma inversão radical da política econômica.

Assim, é bastante provável que em 2015 testemunhemos uma piora considerável do emprego. O desemprego, que até agora se manteve baixo graças à saída em massa dos jovens do mercado de trabalho, deve, portanto, subir de forma mais marcante do que vem ocorrendo no período mais recente, erodindo a única conquista do governo no campo econômico.

Neste contexto, com a inflação ainda alta, graças à escolha do BC pela convergência lenta (se convergência houver), não é necessário ser um gênio da política para concluir que o apoio ao governo, já decrescente, deverá minguar ainda mais. Isto lança dúvidas consideráveis acerca da firmeza da administração quanto a seguir o rumo agora sugerido.


Não sabemos, portanto, se 2015 representará o primeiro passo para nossa redenção ou mera interrupção na estrada da decadência que nos assola. De uma forma ou de outra, 2015 já era. Feliz 2016...

2015 é  o cara à esquerda...

(Publicado 31/Dez/2014)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O topo do pódio

Segundo a Receita Federal do Brasil o total de tributos arrecadados em 2013 atingiu R$ 1,6 trilhão, o equivalente a 35,95% do PIB, algo maior que o observado no ano anterior (35,86% do PIB), fenômeno que se repetiu em 14 dos 19 anos desde a estabilização da economia em 1994. A fome tributária do governo brasileiro (nos seus três níveis, mas principalmente no que se refere à esfera federal) não dá mostras de saciedade. Pelo contrário, o apetite governamental segue crescente.

De fato, nos 3 primeiros anos da atual administração, a carga tributária saltou de 33,5% para os já mencionados 36,0% do PIB. Calculados a preços de hoje o total de tributos cresceu pouco mais de R$ 200 bilhões, enquanto o aumento do PIB no período, também corrigido pela inflação, correspondeu a R$ 270 bilhões.

Posto de outra forma, de cada R$ 100,00 a mais produzidos no país entre 2010 e 2013 o governo se apropriou de R$ 74,00. Destes, pouco menos de R$ 50,00 foram tomados pelo governo federal, enquanto estados e municípios arrecadaram o restante.

Apesar do aumento da arrecadação da ordem de 2,5% do PIB, o superávit oficial combinado das 3 esferas de governo (federal, estadual e municipal) encolheu o equivalente a 0,7% do PIB (de 2,6% para 1,9% do PIB) neste intervalo.

A conclusão inescapável é que a piora do desempenho fiscal – a despeito dos clamores do governo federal quanto às desonerações tributárias – necessariamente decorre do aumento do gasto público. Apenas no caso do governo federal este aumento foi equivalente a 1% do PIB de 2010 a 2013; caso 2014 seja incluído na conta o salto passaria a ser de 2% do PIB.

Trata-se, resumindo, de um governo que tributa muito, mas consegue a proeza de gastar ainda mais. Já a contrapartida em termos de serviços públicos é visível: saúde, segurança, justiça e educação, para ficarmos apenas nos essenciais, continuam abaixo da crítica, em geral de qualidade inferior àqueles oferecidos em países de renda per capita semelhante à nossa.

É este o quadro que espera a nova equipe econômica, um quebra-cabeça com data marcada para sua solução, à vista da promessa do novo ministro de produzir, sem truques contábeis, um superávit primário de 1,2% do PIB no ano que vem.

Resta pouca dúvida, porém, que a principal parcela deste ajuste virá, de novo, sob a forma de maiores impostos, mesmo que Joaquim Levy tenha sugerido o contrário. A redução de gastos, se houver, desempenhará o papel de mero coadjuvante, como, aliás, ocorreu em todos os episódios de “ajuste” fiscal no país.

A perspectiva, portanto, é que nossos “sócios” em Brasília continuem a se apropriar da parte do leão (sem trocadilho barato com o mascote da Receita Federal). Há, contudo, consequências.

Caso mantenhamos o padrão dos últimos anos, um produtor qualquer reterá apenas R$ 26,00 de cada R$ 100,oo daquilo que gerar adicionalmente. Não é necessário ser um gênio, ou mesmo um neoliberal malvado, para concluir que este arranjo desestimula fortemente qualquer atividade econômica.

Aliás, é bastante provável que parcela relevante da queda do investimento observada no período – e, portanto, de nossa capacidade de crescimento de longo prazo – resulte da percepção que a maior parte dos frutos deste investimento será colhido pelo governo, e não por quem o plantou.


A triste conclusão é que o nosso desempenho fiscal se tornou, há muito, um obstáculo para o crescimento sustentado do país. Sem um programa que contenha a expansão do gasto (0,3% do PIB ao ano no caso do governo federal), será difícil crescermos rapidamente. No entanto, a presidente já deixou claro que considera o controle do gasto “rudimentar” e que “gasto corrente é vida”. Não é por outro motivo que colhe o terceiro pior desempenho de crescimento da República; pode agora lutar bravamente pelo primeiro lugar neste nada honroso pódio.



(Publicado 24/Dez/2014)