teste

quinta-feira, 5 de março de 2015

Call de abertura 5/Mar/2015

À espera de um milagre

É sabido que a economia brasileira encolherá em 2015, se é que já não encolheu um tanto no ano passado. Também não é segredo que a inflação persistirá alta e deverá superar a registrada em 2014, ultrapassando também o limite superior permitido pela sistemática de metas para a inflação. Já o mercado de trabalho provavelmente registrará piora visível, liquidando com o último argumento em favor da política econômica prevalecente durante o primeiro mandato da presidente.

Trata-se, enfim, de uma combinação nada invejável. Não chega a ser surpreendente, pois, que ninguém esteja disposto a assumir o fracasso retumbante da “nova matriz macroeconômica”. A vitória, já se disse, tem muito pais; a derrota, porém, é órfã.

Não é outro o motivo para que economistas que apoiaram abertamente as políticas adotadas nos últimos anos venham a público agora afirmar terem feito “inúmeras críticas” a elas.

Contudo, no começo de 2014, quando meus 18 leitores já viam as inconsistências aqui apontadas, membros da mesma tropa não tiveram o menor problema de afirmar que acreditavam “em um crescimento do PIB em torno de 4% para 2014 (...), [pois] o investimento está acelerando neste ano, recuperando o ano passado”. E projetavam uma taxa de inflação “entre 4% e 5%”. Como se pode ver, eram previsões que refletiam uma visão profundamente crítica da política econômica então vigente. Só que não...

Isto dito, eu seria injusto se não mencionasse as críticas que de fato foram feitas. A principal, de longe, é a acusação de “austericídio” fiscal, mesmo em face da maior expansão orçamentária em, pelo menos, 18 anos.

Como já notado neste espaço, o governo Dilma registrou simplesmente o maior avanço do gasto federal no Brasil desde que estes dados passaram a ser compilados (mais de R$ 200 bilhões a preços de hoje, ou 2,7% do PIB).

Neste mesmo período o superávit primário veio em queda, registrando valores menores a cada ano desde 2011, culminando com o registro de um déficit primário em 2014, mesmo pelos números oficiais, que, como se sabe, têm sistematicamente puxado a brasa para a sardinha do Tesouro.

Apenas um habitante da Dimensão Z, alheio a tudo que acontece neste quadrante da galáxia, poderia sugerir que o Brasil passou por qualquer processo que se assemelhasse a um aperto fiscal. Ao contrário do que afirmavam os “keynesianos de quermesse”, foi a falta, não o excesso de rigor fiscal, que jogou nossa dívida pública a 63,4% do PIB em 2014, exatos 10 pontos percentuais do PIB a mais do que o registrado em 2010.

Neste contexto, jogar a culpa do mau desempenho da economia no suposto “austericídio” revela completo desconhecimento dos dados, ou diagnóstico preconcebido.

Trata-se de mais uma instância de desonestidade intelectual: ou porque a conclusão é mantida apesar dos fatos discordantes, ou, ainda pior, porque se arrogam o direito de chegar a conclusões sem se preocupar em saber se Sua Excelência, o dado, se mostra minimamente coerente com o argumento.

A verdade é que estes economistas aplaudiram de pé a “nova matriz macroeconômica”, no máximo opondo-se a um aperto fiscal que jamais existiu. Foram signatários de documentos que pediam a manutenção da política adotada no primeiro governo da presidente, apesar de sinais inequívocos de deterioração do crescimento econômico, da inflação e das contas externas.

Não se opuseram à maciça intervenção governamental no domínio econômico, que resultou em forte queda do ritmo de expansão da produtividade e desarticulação de setores importantes da economia, como o energético e o sucroalcooleiro.


Os custos destas políticas estão expressos na lamentável combinação de crescimento e inflação de 2015. A honestidade intelectual requereria profunda autocrítica acerca destas consequências, mas é melhor tocar a vida do que esperar por um milagre nesta área.

Não vai acontecer


(Publicado 24/Fev/2015)

terça-feira, 3 de março de 2015

Edição da minha participação no Jornal da Cultura (27/Fev/2015)

Alguém (obrigado!) fez a edição da minha participação no Jornal da Cultura. Ficou legal, acho.



segunda-feira, 2 de março de 2015

Diante dos sinais de recessão, o BC deveria parar de subir os juros?

Caso o BC tivesse feito seu serviço quando podia e devia, a resposta seria “sim”; como não fez, é um sonoro “não”.

Desde 2009, quando a inflação atingiu 4,3%, o BC tem falhado continuamente em sua missão institucional. Nestes anos a inflação média superou 6% ao ano e, se o consenso de mercado estiver correto, chegará a mais de 7% em 2015, apesar da recessão.

No período que antecedeu a crise de 2008-2009 houve um trabalho consistente no sentido de manter a inflação na meta. Entre 2005 e 2008, por exemplo, a inflação média ficou em 4,6% ao ano, ainda que, claro, não tenha ficado neste patamar em todos os anos. Não importa: esta proximidade sugere que o Copom então calibrava a política monetária para corrigir eventuais desvios.

Mais importante que este fato, porém, era a percepção dos agentes econômicos acerca do compromisso do BC com a meta. De 2005 a meados de 2010 as expectativas para a inflação 12 meses à frente ficaram ao redor de 4,5%, revelando a crença que o Copom continuaria a determinar a taxa de juros de forma a fazer a inflação oscilar próxima àquele nível.

Contra este pano de fundo, quando a crise de 2008 jogou o país na recessão o BC pôde reduzir a taxa de juros mantendo as expectativas de inflação devidamente ancoradas. O resultado é que, mesmo sofrendo críticas, inclusive internas, o Copom entregou a inflação na meta em 2009, com o PIB retomando a trajetória de crescimento já no segundo trimestre daquele ano.

A atuação desastrosa no período mais recente teve como consequência a perda de credibilidade do BC, expressa em expectativas consistentemente superiores à meta. Neste contexto, manter (ou mesmo reduzir) a taxa de juros não há de ter os mesmos resultados obtidos em 2009. Pelo contrário, face ao enorme choque inflacionário decorrente da necessidade de corrigir os preços administrados reprimidos nos últimos anos, a manutenção dos juros agora perpetuaria a inflação acima de 7% e exigiria sacrifício ainda maior à frente.


Postergamos demais o ajuste e a conta chegou. Melhor pagar agora antes que fique ainda mais caro.



(Publicado 19/Fev/2015)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Call de abertura 26/Fev/2015

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Juventude transviada?

Há tempos que leitores me pedem para escrever sobre o mercado de trabalho. Em comum mostram certa perplexidade, correta, aliás, com a queda do desemprego observada no ano passado, em contraste com a estagnação do PIB.

De acordo com os dados da Pesquisa Mensal do Emprego (PME), conduzida pelo IBGE em seis regiões metropolitanas, a taxa de desemprego recuou de 5,4% em 2013 para 4,8% em 2014. No entanto, tais estimativas revelam um fato curioso: ao menos nestas regiões a queda do desemprego não esteve associada ao aumento do emprego. Pelo contrário, o emprego caiu levemente em 2014, consistente com o comportamento do PIB. Trata-se da primeira vez que isto ocorre desde o início da pesquisa; mesmo em 2009, quando houve queda do PIB (-0,9%) o emprego ainda cresceu moderadamente.

O que poderia explicar o mistério da taxa de desemprego em queda quando o emprego apresenta seu pior desempenho em mais de uma década?

Para entendermos este fenômeno é necessário definir alguns conceitos. O primeiro deles é a População em Idade Ativa (PIA), entendida como todos aqueles considerados em idade de trabalhar. Segundo a definição da PME, encontram-se na PIA todos aqueles com 10 ou mais anos de idade, que me deixa algo envergonhado, mas que, na prática, não faz muita diferença, já que menos de 1% daqueles entre 10 e 14 anos participam do mercado de trabalho (ainda bem!).

Já a População Economicamente Ativa (PEA) é definida como aqueles que, dentro da PIA, estão engajados no mercado de trabalho, seja como empregados, seja em busca de emprego. A relação entre a PEA e a PIA é conhecida como taxa de participação e durante muito tempo oscilou próxima a 57%. Caso desconsideremos a população de 10 a 14 anos, esta grandeza ficaria em torno de 62%.

Assim, para ser considerado desempregado, o indivíduo tem que fazer parte da PEA. Pessoas que não têm emprego, mas que não estejam procurando trabalho, não são consideradas desempregadas. Este critério, é bom que se diga, não é uma jabuticaba; ao contrário, trata-se de uma definição internacional.

Ocorre que, em particular no ano passado, houve outro desenvolvimento curioso no Brasil, estreitamente ligado à queda do desemprego. A PEA encolheu, também pela primeira vez desde o início da pesquisa, mas numa proporção ainda maior que a redução do emprego. Enquanto aquele caiu 0,1%, a PEA recuou 0,7%, isto é, algo como 170 mil pessoas nas regiões pesquisadas pelo IBGE decidiram abandonar o mercado de trabalho.

Posto de outra forma, a taxa de participação caiu para 56% contra os 57% usuais. Tivesse ela se mantido em sua média histórica, o desemprego teria aumentado de 4,9% em 2013 para 6,2% em 2014.

A queda mais pronunciada se deu entre os jovens de 18 a 24 anos: historicamente 70% deles participavam do mercado de trabalho, mas esta proporção caiu para 65% em 2014 (e já vinha em queda). A hipótese benigna para explicar este fato seria maior dedicação aos estudos, mas ela não parece suficiente para dar conta de todo o fenômeno. Houve aumento da proporção de jovens que nem trabalha, nem estuda.

Há quem pergunte se este desenvolvimento pode estar associado ao aumento da rede de proteção social, em particular ao Bolsa-Família, que desestimularia a oferta de trabalho.

Não parece ser o caso, segundo meu amigo e colega Naércio Menezes Filho, que sugere que o aumento da renda do trabalho dos chefes de família mais pobres retirou a necessidade de jovens buscarem emprego, sem, porém, que estes tenham necessariamente se dedicado ao estudo.


Se a hipótese do Naércio estiver correta, a desaceleração dos salários que deverá ocorrer este ano interromperia, ou mesmo reverteria, este fenômeno. Neste caso seria questão de tempo para que o desemprego voltasse a subir e, com ele, a rejeição à presidente, desenvolvimento que lançaria novas dúvidas sobre a firmeza de propósito acerca da nova política econômica.



(Publicado 18/Fev/2015)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

E aí, vai encarar?

“Numa política monetária (sic) de metas de inflação é muito mais razoável considerar as taxas médias dos últimos três meses como medida de inflação do que a taxa acumulada de inflação dos últimos 12 meses, como faz o Banco Central do Brasil” (Yoshiaki Nakano - link abaixo)
Aguardo ansiosamente artigo do Yoshiaki defendendo um aumento brutal dos juros depois da inflação (anualizada) dos últimos 3 meses atingir quase 13%. Ansioso, claro, mas em posição confortável, porque vai demorar muuuuiiiittttooo...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Call de abertura 19/Fev/2015

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

"Made in Brazil"

No final de 2013 muito se falava sobre a possibilidade da chamada “tempestade perfeita”, entendida à época como a combinação profana do rebaixamento da nota da dívida brasileira com o aumento das taxas de juros nos EUA. Segundo o ex-ministro Delfim Netto, em tal cenário teríamos “uma rápida elevação da taxa de juros no mundo, uma mudança dos fluxos de capitais, um ajuste instantâneo e profundo da nossa taxa de câmbio, uma redução do crédito bancário, uma queda dramática da renda real dos trabalhadores e a volta (...) de taxas de juros reais aos absurdos níveis com que vivemos durante tantos anos, acompanhados por um aumento do desemprego”.

Embora a nota da dívida tenha sido rebaixada, não chegamos a perder (ainda!) o “grau de investimento”, nosso atestado de bons pagadores. Por outro lado, em que pesem os sinais de recuperação cada vez mais evidentes da economia americana, como mostrado no último relatório do mercado de trabalho, as taxas de juros (no caso para aplicação nos títulos de 10 anos do Tesouro) se encontram cerca de um ponto percentual mais baixas do que eram à época, na casa de 1,80% ao ano. A verdade é que esta temida “tempestade perfeita” (ainda) não ocorreu.

No entanto, à falta da ajuda meteorológica estrangeira, o governo, com sua competência habitual, tratou de criar a versão brasileira deste desastre climatológico-econômico.

O consenso entre os economistas que contribuem para a pesquisa Focus, do BC, aponta para crescimento nulo em 2015 com a inflação superando 7%, e isto num cenário que não contempla racionamento de energia e água (ainda; perdão pela repetição do advérbio).

Assim, o mercado de trabalho, que não foi bem do ponto de vista de geração de empregos em 2014, deve provavelmente ter desempenho ainda pior em 2015. Neste contexto é difícil imaginar que a taxa de desemprego vá permanecer tão baixa quanto nos últimos anos.

É tentador atribuir este quadro desolador às políticas adotadas no período mais recente e não tenho a menor dúvida que economistas já conhecidos por seu baixo apego à honestidade intelectual não hesitarão em fazer exatamente isto. Aliás, não parece ser outra a motivação do manifesto “heterodoxo” publicado na semana passada.

A verdade, contudo, é que a “tempestade perfeita” vem sendo gestada domesticamente há anos, mas ganhou velocidade do final de 2014 para cá.

Do lado da política macroeconômica, a irresponsabilidade foi a norma. A incapacidade de reconhecer que a desaceleração da economia brasileira resultava essencialmente de limitações do lado da oferta levou a políticas de aumento sem precedentes do gasto governamental, assim como o desmonte da estrutura institucional que impunha alguma disciplina ao setor público. A Lei de Responsabilidade Fiscal foi devidamente imolada no altar da “nova matriz macroeconômica”.

Da mesma forma, o descaso com a inflação ficou evidente na condução desastrada da política monetária de 2011 para cá, também implicando considerável retrocesso institucional.

Tão, ou mais, importante, porém, foi a deterioração da política microeconômica. Retomando velhos vícios no que se refere à intervenção no domínio econômico, o governo desarticulou setores importantes, reduzindo ainda mais o ritmo de expansão da produtividade, agravando o problema do baixo crescimento.

O resultado destas políticas não poderia ser diferente do observado: estagnação, inflação acima da meta, déficits externos elevados e dívida pública crescente, agravados agora pela gestão desastrosa tanto da Petrobras quanto do setor energético, supostamente áreas de especialidade da presidente.


A “tempestade perfeita” é apenas o ponto culminante dos erros do governo, cuja responsabilidade cabe igualmente aos economistas que não só aplaudiram a política econômica da presidente, mas também pediram bis, e agora tentam desajeitadamente fingir que nada tem a ver com o problema.



(Publicado 11/Fev/2015)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Triconomics (agora rebatizado Call de Abertura) 12/Fev/2015